27 de nov de 2011

Palhaços


Alguém se lembra de Diogo Mainardi, aquele colunista da Veja que tanto criticava o governo Lula? Pois é, certa vez Mainardi se dedicou a escrever sobre uma adaptação que a Globo fez para a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. A série, exibida em 2008 com o nome de Capitu, fez um relativo sucesso na época, mas Diogo Mainardi não gostou, publicando um artigo em sua coluna para criticar a série (leia o artigo aqui). Na época eu também escrevi um texto em meu antigo blog sobre isto (sobre o Mainardi, não sobre a série). Hoje mexendo em alguns arquivos encontrei este texto, um dos melhores que já escrevi, e gostaria de publicá-lo novamente para deixar registrado. Eis o que escrevi à época:


Diogo Mainardi foi eleito recentemente como o autêntico ranzinza brasileiro. Eleito por quem? Por mim, é claro, numa atitude bem mainardiana. Daqui a 100 anos, após sua morte, o mainardismo irá se tornar uma corrente filosófica. Sempre que alguém se levantar a falar mal de tudo e todos a sua volta, revestido de uma intelectualidade pedante e um sarcasmo quase infantil (como eu agora), logo acusarão: trata-se de um autêntico mainardista. E este autor não poupa ninguém com sua metralhadora giratória de escárnio. O mais recente alvo foi a mini-série da globo, Capitu. Marnardi com seus olhos de lince e sua visão além do alcance, após algumas horas na frente da TV, logo nos dá seu veredicto: "A série Capitu tem um aspecto circense. É Machado de Assis encenado por Orlando Orfei. É Bentinho imitando Arrelia no picadeiro de Fausto Silva: ‘Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem’". Fantástica comparação. Acho que a homenagem a dois ícones das artes circences brasileira e mundial é digna, e realmente o espetáculo proporcionado pela Globo está à altura destes dois grandes nomes da história do circo.

Mas temo que este não tenha sido o objetivo do autor ao fazer tal comparação. Mainardi, após anos e anos de escárnio ao governo Lula, parece ter se cansado, afinal, não conseguiu derrubar o governo, e pretende agora destilar seu pitaco direitista na programação de nossa TV. Já vejo o próximo passo da sua falta de assunto (e da minha também): Mainardi discutindo a democracia racial na novela das 8. "O deputado Romildo Rosa é a prova de que a corrupção não é privilégio de brancos", diria nosso racista intelectualóide. Pois bem, no caso de Capitu, Mainardi se utiliza de um subterfúgio muito sutil ao fazer sua análise. Ao ler seu texto, fica bem claro sua posição, paradoxalmente imperceptível ao leitor mais desatento: é o de que seus argumentos só terão validade se partirmos do princípio da negatividade e inferioridade da arte circense. Para Mainardi, o circo é algo inferior, espetáculo das massas, massas aliás das quais Mainardi se orgulha em não fazer parte. Seu negócio é com os clássicos, com a ortodoxia da arte erudita, que deve se manter intocada e imaculada em seu santuário. Assim, Mainardi reveste-se com sua capa de santidade e se torna o arauto cristão da arte morta. Sim, pois uma obra de arte que não pode ser revista e atualizada, que não pode receber novos olhares e novos enfoques, só pode estar morta.


Este é o princípio de Mainardi e sua legião de seguidores. Para estes, a série da Globo deve ser condenada pois profana o hímen machadiano, tornando sua obra um espetáculo de circo. Agora entendo porque gostei tanto da obra de Luiz Fernando Carvalho: sempre adorei os espetáculos circenses, especialmente os palhaços. Acho que talvez por isto eu goste tanto do Mainardi também. Ele é o nosso palhaço direitista, nosso Dom Quixote, em sua luta eterna contra os moinhos de ventos do governo Lula. E não faltam Sancho Panças para lhe seguirem. Mas tenho que concordar com sua comparação: realmente Luiz Fernando Carvalho procede a uma carnavalização do texto machadiano. E o faz com competência. Sobre esta história, lembro-me de um texto de Hayden White, historiador estadunidense, que defendia o historiador carnavalesco como ideal para representar nossa sociedade. Esta carnavalização, para ele, nada mais é do que a utilização da ironia, do sarcasmo, é fazer uma imitação, um pastiche da realidade. Assim como faz Machado, assim como fez Luiz Fernando Carvalho, assim como faz Mainardi, assim como faço eu. O gênero carnavelesco de Hayden White é a base do mainardismo. O que os separa é que Hayden White foi um exímio combatente dos historiadores tradicionais, enclausurados em seus métodos invariáveis e sua narrativa enfadonha. Dizia que o texto histórico, assim como o literário, teria a função, entre outras coisas, também de divertir. E este é o propósito de qualquer manifestação artística. Proporcionar divertimento, satisfação, alegria. E nisto Luiz Fernando Carvalho soube conduzir muito bem sua Capitu, demonstrando-nos que a obra artística é vasta, e por isto passível de inúmeros olhares diferentes.

Mas Mainardi não gosta de circo. Posso vê-lo como um autêntico aborrescente precoce, sendo obrigado por seus pais a sujar seus sapatos na terra e a se sentar nas tábuas de madeira para apreciar àquele espetáculo grotesco: malabaristas ensandecidos, mágicos afetados, e os piores de todos, os palhaços! Ah, os palhaços, estes abobalhados e ridículos personagens, a fazer suas peripécias em cima do palco, enquanto o jovem Mainardi assiste desdenhosamente a tudo. Talvez tenha sido este trauma de infância que o tenha levado a se tornar um mainardiano. Agora sim percebo a raiz do problema: Mainardi não gosta de palhaços. Ele não gosta de piadas, de carnaval, nem de circo, e muito menos de palhaços. Ele não tem senso de humor. Lula foi eleito seu palhaço-mor. Luiz Fernando Carvalho, ao proceder a sua reinvenção de Dom Casmurro, caiu nas graças do autor. E Mainardi, ao proceder a seu escárnio verborrágico, caiu nas minhas graças. O circo está completo. Eu, Mainardi, Machado, Lula, Bentinho, somos todos personagens de um grande pastiche, espetáculo grotesco, no qual não nos cansamos de reinventar e carnavalizar a realidade.

Mainardi sofre do mal que teima em combater. Não passa de um Arrelia se apresentando no picadeiro de Fausto Silva: "Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem". Seus textos são injetados de uma ironia nada sutil e de um escárnio incontido que beira ao insano: "Lula tem dono. Lula é meu! Eu vi primeiro...", teria escrito ele na orelha de seu livro. Mainardi é o historiador carnavalesco de Hayden White. Ele é o Palhaço do Circo Sem Futuro. Assim como Machado. Seu estilo sarcástico e carnavalesco fica claro nas primeiras linhas de uma de suas obras: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas". Luiz Fernando Carvalho pegou bem a essência do autor. Já Mainardi teima em continuar se enganando e se travestindo de uma direitice canalha como só a esquerda sabe fazer. No fim das contas, Mainardi é tudo aquilo que mais odeia: carnavalesco, esquerdista, e o pior de tudo: palhaço.

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