16 de dez de 2012

Humor imparcial?


Recentemente mais um capítulo das polêmicas em torno do novo estilo de humor Stand'Up veio à tona. Trata-se do documentário O Riso dos Outros, do humorista Pedro Arantes. Como o próprio título deixa claro, o filme trata de um tema que vem gerando discussões recentes na mídia: o humor tem limites? Se tem, quais seriam eles? Em campo, dois grupos distintos e bastante engajados: os que defendem um certo "humor livre" contra os que defendem uma responsabilidade social do humorista.

Danilo Genrilli e Rafinha Bastos, pivôs de uma série de escândalos envolvendo piadas polêmicas capitaneiam o grupo dos defensores do "humor livre". O cartunista Laerte, ao lado de figuras fora do humor, como o deputado e ex-BBB Jean Willys contra-atacam pelo time dos "humoristas responsáveis". Entre os temas discutidos estão racismo, homossexualismo, gênero e outros que normalmente são os principais alvos destas piadas. Exageros e clichês a parte, de ambos os lados, o filme soa como um ponto de reflexão para todos nós que gostamos de rir (e quem não gosta?). 


A ênfase maior dos "politicamente corretos" está na ideia de que o humor não é um campo neutro. Assim como outras formas de exposição na mídia, toda piada contém um discurso por trás. Discurso que muitas vezes não é assumido pelo próprio humorista. Este é o maior problema, por exemplo, quando humoristas fazem piadas ofensivas a grupos historicamente já bastante rotulados. Se toda piada tem um alvo, como um dos tópicos do filme afirma, por que estes alvos tem que ser sempre os mesmos, reforçando preconceitos e discriminações já existentes em nosso meio social?


Do outro lado, os humoristas se defendem alegando que o único objetivo de uma piada é ser engraçada, e não fazer refletir nem tentar mudar a sociedade. Para eles o humorista apenas reflete os preconceitos já existentes, e acabam devolvendo para o público o problema: ou seja, eles continuam fazendo piadas preconceituosas porque as pessoas continuam a rir delas. Se ninguém risse dessas piadas, ninguém as faria. 


Toda esta discussão acaba convergindo para a questão da censura e da liberdade de expressão. Até que ponto ela vai? A grande reclamação dos humoristas é que muitas vezes eles acabam tendo sua liberdade de expressão tolhida ao serem condenados ou proibidos de fazer determinadas piadas que foram consideradas ofensivas a determinados grupos, como aconteceu inúmeras vezes com Rafinha Bastos recentemente, que inclusive foi obrigado a parar de vender seus DVDs por conta de uma piada com deficientes físicos. Sobre isso, Rafinha dá seu veredicto: "Me processar eu acho justo! Ganhar eu acho que atrapalha."


O que nos esquecemos muitas vezes é que a liberdade não é ilimitada, como lembra o próprio Jean Willys no filme. Se assim o fosse poderíamos matar, roubar. A nossa liberdade termina aonde começa a do outro. Porque no humor seria diferente? Muitas vezes essa tão falada "liberdade de expressão" acaba sendo usada como uma muleta para que o humorista tenha o direito de ofender aos outros para fazer humor, como se a desculpa de "foi só uma piada" fosse suficiente para podermos fazer o que quiséssemos. Além disto, os humoristas reclamam das reações a suas piadas. Ou seja, eles querem a liberdade de fazer a piada que quiserem, mas negam a liberdade do outro de reclamar desta piada. Como afirma Jean Willys:

"Acho que os humoristas e comediantes eles tem que ter liberdade mesmo de fazer a piada. Agora eles não podem achar que não tem que ser contestados. Porque esse é o problema, é querer fazer a piada e não querer ser contestado. É fazer a piada, ofender um coletivo e não querer que esse coletivo reaja.  Olha, desculpa aí, querido, mas não pode ser uma via de mão única, é uma via de mão dupla: você tem todo o direito de fazer sua piada; agora pague o preço de ser chamado de babaca, de racista, de homofóbico, de sexista; se defenda, se explique, refaça, reveja seu humor."


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