29 de dez de 2014

A intolerância ao pensamento divergente

Estas últimas eleições no Brasil escancararam um novo comportamento do cidadão comum brasileiro frente à política. Ânimos acirrados de todos os lados deram o tom do "debate" em torno dos presidenciáveis. Coloco entre aspas pois, a meu ver, tratou-se muito mais de uma troca de insultos do que efetivamente troca de ideias a respeito do que consideravam o melhor para o país naquele momento. Como membros de torcidas organizadas, os dois lados saíram às ruas das redes sociais para protestar e tentar mostrar, mesmo que de forma atabalhoada e sem muita coerência, na maioria dos casos, que o seu lado era o melhor. 


Resquícios disso tudo ainda aparecem aqui e ali, mesmo passadas as eleições. E provavelmente, continuarão aparecendo esporadicamente pelos próximos anos. Com o advento das redes sociais, especialmente do Facebook, que permite o compartilhamento de textos e extratos de sites onde o usuário pode anexar sua opinião/visão do assunto, reforçando assim o pensamento que ele acredita ser o correto, acabamos tendo contato com as visões políticas, opiniões e pensamentos sobre vários assuntos de nossos parentes, amigos e conhecidos, e nem sempre gostamos daquilo que vemos. O facebook nos fez compartilhar nossas opiniões de uma forma que não acontecia antes em ambientes fora da internet.   

Mas o acesso a um universo maior de opiniões, fato que deveria ser corriqueiro em uma democracia, nos fez perceber que ainda não sabemos lidar com opiniões divergentes. A enxurrada de discussões inócuas e agressivas que tomaram conta da internet neste ano, levando muitas vezes a ressentimentos e até brigas entre entes queridos nos dão a prova disso. Imagino que muitas festas de natal tenham tido um tom de desconfiança, quando não de beligerância declarada quando aquele parente que defendia abertamente o PT se encontrou com aquele outro PSDBista ferrenho. Não se tratavam de debates, onde ambos esboçam seus pontos de vista, tentando apresentar seus argumentos de forma racional e polida, mas sim de verdadeiras guerras onde o objetivo de cada um era apenas de desqualificar seu opositor, usando para isto não argumentos racionais, mas injúrias e clichês. 

A democracia nos permite ter opiniões individuais, alicerçadas neste ou naquele discurso produzido por especialistas, intelectuais, correntes teóricas e pela mídia em geral. Debater estes pontos de vista com o objetivo de aprimorar nossas opiniões e pensamentos é elemento basilar e constitutivo de qualquer democracia. Infelizmente, ainda impera em nosso meio o pensamento colonial, ou seja, aquele que inferioriza qualquer opinião que seja divergente da nossa, e tenta impor, até mesmo de forma violenta, a nossa visão de mundo. Inferiorizar o outro e desprezar suas opiniões políticas é o primeiro passo para nos levar à intolerância e, consequentemente, detonar os pilares de nossa democracia. 

Temos quatro anos, até às próximas eleições presidenciais, para aprendermos a conviver com o divergente, aprender a fazer um debate de ideias sério e racionalizado, sem cair na agressividade ou desprezar a opinião alheia. Quem sabe assim conseguiremos criar um ambiente saudável e conviver com opiniões contrárias, ainda mais quando se tratam de nossos amigos e familiares. O bom senso agradece. 

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