4 de mar de 2014

Mais estranho que a ficção


Sempre fomos especialistas em imaginar o futuro. Como será a vida daqui a 10, 20, 50, 1000 anos? Fazemos isso desde Júlio Verne. Ou talvez até antes. Mas o fato é que histórias futuristas, em sua maioria, não querem nos dizer sobre o futuro. Elas nos dizem muito mais sobre o aqui e agora. Se repararmos bem, as histórias futuristas são traços exagerados de nossa própria sociedade, de nosso próprio modo de viver. 


Foi assim com Aldous Huxley e seu "Admirável Mundo Novo", que apontava para a extrema "formação" de seres humanos como mão-de-obra; foi assim com George Orwell e seu "1984", que discutia o estado de vigilância a que estamos submetidos; enfim, ainda é assim com a maioria dos filmes hollywoodyanos. "Her" não poderia ser diferente. O filme se passa em um futuro indefinido, cujo principal diferencial é a extrema conexão entre seres humanos e softwares tecnológicos. 

O retrato de nossa própria sociedade parece bastante apropriado, e quando caminhamos nas ruas e vemos todos à nossa volta entretidos com seus fones de ouvidos e smartphones, é fácil nos remetermos imediatamente à algumas cenas do filme. A solidão humana e a dificuldade em lidar com relacionamentos é o lado mais óbvio da história, e pode nos fazer pensar sobre nossa própria condição humana. Tanta solidão que nos faz apegar-nos a qualquer migalha de atenção que nos apareça. Mesmo que seja de uma... máquina. 


Este é o mote do filme, o relacionamento de um homem com um sistema operacional de inteligência artificial. De tão perfeito, o sistema consegue se desenvolver a tal ponto de simular emoções humanas. Ou seria sentimento realmente? Afinal, o que são nossos sentimentos se não sinapses emitidas por nosso cérebro? Neste ponto, talvez não sejamos tão diferentes assim de um impulso elétrico. De qualquer maneira, a máquina consegue simular reações humanas, tão críveis quanto as de uma pessoa real. E, em última instância, nossa sociedade não passa disto: um conjunto de simulacros. Não importa o que você é, mas sim como se parece. O que é real e o que não é? Filmes como Matrix e outros já discutiram a fundo o tema, e nos fizeram refletir: e se o mundo em que vivemos fossem apenas impulsos elétricos enviados para nosso cérebro, isto faria alguma diferença? Deixaria de ser menos real? 


Estes questionamentos nos mostram como o filme em questão é atual. Em tela acompanhamos os dilemas e frustrações de Theodore (Joaquim Phoenix) em seus diferentes relacionamentos, e acabamos nos vendo refletidos nesta história, brilhantemente contada por Spike Jonze, que inclusive mereceu o Oscar de melhor roteiro original. Qualquer semelhança com a realidade não será mera coincidência. 

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