7 de fev de 2014

Adotemos um bandido


Há um ponto cego nesta discussão a respeito daqueles que resolveram "fazer justiça", agredindo e torturando um jovem de 15 anos com 26 passagens pela polícia por roubo e furto. O ponto cego está exatamente nas declarações da jornalista do SBT que resolveu defender estes chamados "justiceiros", dizendo que quem estivesse achando ruim deveria "adotar um bandido". A solução se esconde exatamente nesta frase.


Cobramos punições para a violência, sem nos atentarmos para o que isso de fato representa. Tendemos a interpretar o sistema carcerário como um sistema de revanche e vingança contra o agressor. Mas se tal sistema visasse apenas isto, faltaria lugar no mundo para encarcerar bandidos. A punição para quem comete delitos é um lado da moeda. Mas ela tem que vir acompanhada de outro: educação e reabilitação. Do contrário, de nada adiantará todos os nossos esforços. Se o sistema prisional não servir para reabilitar, mas apenas para punir, isto significa que, ao final da pena, o transgressor voltará às ruas da mesma forma que entrou, ou até pior. O correto é que o sistema sirva para reabilitar e ressocializar o cidadão, dando instrução e oportunidades para que o transgressor não volte à vida de crimes. 

Óbvio que nosso sistema judiciário e prisional hoje está anos-luz longe disto. É um sistema que não funciona como deveria funcionar. E a frustração com um sistema ineficiente acaba gerando a tentadora ideia de buscar a outras formas de justiça. Não é a toa que nos últimos anos grupos de extermínios tenham crescido entre policiais. E agora, surge uma nova modalidade: o justiceiro comum, que tortura e agride menores infratores, como uma forma de punição de seus delitos cometidos. O cidadão que aplaude e defende tais atos diz se sentir cansado de tanta violência. Mas é sintomático que sua reação se volte exatamente para o lado mais fraco e frágil da corda: o menor infrator. 


Tal reação é típica de um cidadão que não consegue pensar além do que está diante de seu nariz. Não foi ensinado a analisar a sociedade de uma forma ampla, identificando causas e consequências. Talvez por isto ele queira tanto combater as consequências, e não as causas, e de uma forma que, ao invés de corrigir o problema, acabará aumentando-os. Tortura é crime hediondo. E não se combate a criminalidade se tornando um criminoso. Além disto, esta revanche não resolverá o problema da violência. Irá apenas (me desculpem o clichê), gerar mais violência. Para esta violência que vem aliada à pobreza, resultado de uma espoliação social contínua, a educação é o melhor caminho. Devemos buscar meios de combate à pobreza e à miséria; devemos universalizar as oportunidades (que hoje são escassas entre as classes mais baixas); devemos universalizar e melhorar o ensino e a educação. Estas são as únicas formas de "tentar" reduzir a criminalidade: "adotar" um bandido e educá-lo. 


Agora, se vamos realmente fazer justiça com as próprias mãos, que não fiquemos apenas nos menores infratores. Comecemos pelos de cima então, torturando os filhinhos de papai que bebem e dirigem irresponsavelmente, matando pessoas inocentes no trânsito; os jovens de classe média que agridem e queimam mendigos e índios nas ruas; os políticos que usam de seus cargos apenas em benefício próprio; os empresários e ruralistas que utilizam trabalho semi-escravo em suas fazendas. Enfim, que não fiquemos apenas no lado mais fraco da cadeia, que nossa justiça se volte para todos os bandidos existentes em nossa sociedade, do menor ao maior escalão. 

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