19 de jun de 2013

É o fim da "cordialidade" do brasileiro?


Ultimamente todos nós temos acompanhado nos noticiários e nas redes sociais as repercussões das inúmeras manifestações que ocorrem pelo país em várias capitais. As informações são muitas, desencontradas, e todos tentam buscar um sentido em tudo o que está acontecendo. Neste momento, o excesso de opiniões e informações postadas nas redes mostra a disparidade de interesses da população brasileira em suas mais variadas classes sociais, raças e gêneros. Assim qualquer tentativa de tecer considerações a respeito de tudo isto corre o risco enorme de ser desmentida pelo distanciar do tempo, que nos mostrará os desdobramentos e consequências de tudo isto. Mas se furtar a tentar elaborar uma explicação plausível pra tudo isto também não parece ser um caminho, pelo menos não pra mim. 


Comecemos portanto pelo que temos de concreto: manifestações pela redução nas tarifas de ônibus. Isto foi o estopim de tudo e continua sendo o chamariz principal. As primeiras manifestações ocorreram nas cidades de Natal, onde as passagens subiram de R$ 2,20 para 2,40 e em Porto Alegre onde o aumento foi de R$ 2,85 para 3,05. Mas foi talvez em Goiânia que o aumento teve mais repercussão. Os protestos em Goiânia começaram no dia 16 de maio e chamaram a atenção pelo caráter extremamente violento da repressão, e de alguns manifestantes, que fecharam terminais com barricadas, queimaram pneus e depredaram 13 ônibus. Goiânia foi a capital que teve o maior aumento de todas, com a passagem indo de R$ 2,70 para 3,00, aumento de 11%, muito acima da inflação. Talvez isto explique o caráter explosivo das manifestações, que em parte surtiram efeito após o Procon entrar com uma ação e um juiz despachar liminar obrigando a empresa de ônibus goiana a voltar o valor para R$ 2,70 até que fossem revistos os valores do aumento. 


Em Junho começam os protestos em São Paulo e logo após no Rio de Janeiro, e aí o movimento começa a ganhar ares de revolução. O caráter violento das repressões logo nos primeiros protestos, aliado à cobertura tendenciosa da mídia, que colocava os manifestantes como vândalos e a polícia como se tivesse sido obrigada a revidar e usar a força pra conter os manifestantes, fizeram com que os movimentos crescessem cada vez mais, a ponto das últimas manifestações atraírem números expressivos de 100 mil pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro, e fazer com que as manifestações se alastrassem por outras capitais. Na última segunda-feira mais de 100 cidades fizeram manifestações pelo país. 


Paralelo a estas manifestações, um outro grupo fazia protestos contra a realização da Copa do Mundo nos dias de jogos, do lado de fora dos luxuosos estádios que abrigavam as partidas. Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte tiveram protestos deste tipo, que também foram duramente reprimidos pela polícia. Isto foi o suficiente para que começasse a ventilar nas redes sociais que estávamos vivendo uma revolução. Logo víamos mensagens no Facebook e Twitter aliando as manifestações às mais inúmeras causas, desde luta contra a "corrupção", contra o "governo", contra a PEC 37, contra mensalão, entre inúmeras outras. A partir daí cada vez mais pessoas, que antes nunca tiveram costume nem interesse de organizar protestos começaram a ocupar as ruas. As manifestações cresceram em número de pessoas, e apesar dos inúmeros pedidos da maioria dos manifestantes pela paz, aumentaram em violência também, com destruição de monumentos, prédios públicos e privados e até saques de lojas, por parte de pequenos grupos. 


Muitos começaram a dizer que os movimentos perderam o foco, que não se sabe mais o que se está reivindicando, outros tentam analisar que há um inconformismo geral que agora está explodindo, e outros ainda que grupos diversos tentam se aproveitar das manifestações e colocar nela causas que antes não lhes eram inerentes. Em partes, todas estas análises estão certas, a meu ver. Por isto mesmo temos que buscar manter os pés no chão e retomar o foco das manifestações. Manifestar contra "tudo", contra os problemas em geral da nossa sociedade pode servir como uma forma de desabafo (e creio que em muito as manifestações tem este aspecto, de uma sociedade que estava engolindo muita merda ao longo dos anos e que viu nas manifestações uma forma de revidar). Mas na prática, este tipo de protesto, sem lideres, sem uma agenda de proposições, tem pouco efeito prático. Pode servir pra deixar os políticos espertos, fazê-los pensar mais nas propostas e projetos que irão aprovar. Mas nada além disso. Em Brasília, onde quase 50 mil pessoas ocuparam a parte externa do Congresso Nacional isto ficou bem claro: não havia um foco específico nos manifestantes e nem líderes. Era uma manifestação absolutamente espontânea e até descontrolada. Tanto é que um dos líderes do governo disse que procurou um articulador para negociar a saída dos manifestantes de lá e não achou ninguém. Não há líderes, nem propostas. Só o desabafo. 


Não é o caso por exemplo de outras capitais, como já citamos em Goiânia, São Paulo, Porto Alegre e Natal, que continuam lutando pelo transporte, com um movimento constituído, lideranças e etc. Tentar desfocar o movimento talvez seja uma forma de diminui-lo. Afinal, lutar genericamente contra a "corrupção" é algo que terá pouco efeito prático. Serve para mostrar descontentamento, mas não há propostas a serem reivindicadas. Se protestamos contra a "corrupção", o que propomos para que ela acabe? Com quem iremos negociar? E quais ações exatamente irão compor nossos pontos de pauta? Além disto, o problema disto tudo é a partidarização que tentam injetar nas manifestações, como se ela fosse contra este ou aquele  partido. No caso das manifestações contra o aumento dos transportes, ela tem endereço certo: o governo municipal, seja de que partido for (temos aí envolvidos o PT em Goiânia e São Paulo, o PMDB no Rio de Janeiro e Porto Alegre e PDT em Natal, entre outros), pois é a ele que compete as tarifas do transporte público. No caso de São Paulo, as manifestações também tiveram como alvo o governo estadual (PSDB), em virtude da truculência da repressão policial, que é competência dele. Mas não passa disso. Portanto qualquer tentativa de apropriação e de dar um caráter anti-partido ao movimento, por parte dos partidos da oposição não tem qualquer ligação com o que realmente aconteceu. Já tem gente até falando em Impeachment do presidente, como se os manifestantes buscassem isto. Ou seja, querem dar outros enfoques para os manifestos, enfoques que não existem. 


Enfim, não podemos negar o ineditismo destas manifestações. Nossa população parece ter encontrado motivos pra ir pras ruas, e parece ter gostado disto. A sensação de protestar tomou conta de todos, e todos querem participar destes movimentos, seja pelo motivo que for. Afinal, motivos é o que não falta. Muitos dizem que a sociedade acordou. Outros que os movimentos sociais sempre estiveram acordados. Isto é verdade. Mas não podemos negar que uma grande parcela da população, que historicamente não se envolvia em protestos, agora quer avidamente ir pro meio das ruas e participar dos movimentos. Eu posso afirmar a partir dos movimentos que já participei. A Universidade em que trabalho por exemplo está de greve neste momento há quase 2 meses. Nesse tempo organizamos protestos, manifestações, mas o número de adesões sempre foi muito pequeno. E agora vejo alunos meus que nunca participaram de greves nem manifestações combinando de ir nas próximas manifestações pelo facebook. Algo se modificou. Creio que em grande parte tal disposição se deva à necessidade de participar de algo que elas vêem acontecendo pela televisão, de algo que perceberam ser grandioso. Mesmo sem saber direito porque, elas querem protestar. E é assim que começa. Talvez esta nova postura inaugure uma nova época em nosso país. Uma época em que não nos contentemos com as injustiças que vemos ao nosso redor, e passemos a reclamar mais, a protestar mais, a manifestar mais. Talvez seja o fim da "cordialidade" do brasileiro que nos dominou até aqui.  Só nos resta esperar pelas consequências disto no futuro. 

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