15 de abr de 2013

Do luxo ao caos - um passeio por Lima


Um dos preceitos básicos dos estudos sobre a identidade nacional e cultural de um povo é que ela se reforça no contato com os "outros", com o diferente. Pra quem já teve a oportunidade de viajar a outros países, deve ter sentido isto na prática. Eu o fiz recentemente. Minha primeira viagem internacional teve como destino a cidade de Lima, capital do Peru. Lá ocorreu o 14º Encontro de Geógrafos da América Latina, com pesquisadores de toda a América, especialmente do Brasil. Claro que na oportunidade, aproveita-se também para fazer turismo, conhecer a cidade e seus principais pontos turísticos. E foi o que fizemos.

Entre os pontos visitados, os sítios arqueológicos de Puruchuco e Huaca Pucllana, ambos de civilizações pré-incas. Possuem museus com artefatos arqueológicos de escavações, além de palácios e construções recuperadas e abertas à visitação. Uma boa oportunidade para se lembrar daquelas aulas de história que você teve na sétima série. Além disto, o Centro histórico de Lima é um museu a céus abertos. Assim como de algumas cidades brasileiras  os casarões e palácios fazem parte da arquitetura local, e abrigam dezenas de museus e centros históricos, praças e monumentos, a maioria em homenagem às batalhas e heróis da independência e das posteriores batalhas por territórios travada com o Chile. 


Outro local bastante interessante para se visitar, e que apresenta uma paisagem totalmente diferente do restante da cidade é o distrito de Miraflores. Localizado na orla marítima, o bairro é uma espécie de Oscar Freire com maiores proporções. Ruas largas, organizadas e bem arborizadas, prédios modernos e bonitos, Shoppings e Cassinos luxuosos fazem parte da imagem do local. Lá se encontram os melhores hotéis da cidade, por isto mesmo as ruas são tomadas por turistas de todas as procedências diferentes, transformando-se numa verdadeira torre de babel de línguas e sotaques. Ali ao lado pode-se visitar as praias do oceano pacífico, mas não se empolgue muito. As pedras no lugar da areia e a temperatura gelada da água fazem com que os turistas cheguem somente até na beirinha pra tirar algumas fotos. E só. Nada de barraquinhas, água de coco e mulheres de biquíni  Apenas alguns surfistas se aventuram nas águas geladas do pacífico para pegar as violentas ondas que se formam. E nada mais. 


Além dos locais para se conhecer, os aspectos culturais da vida em Lima tornam a visita à cidade bastante interessante. E o que mais chamada atenção a todos que chegam é o comportamento do peruano no trânsito. Se você acha que o trânsito no Brasil é ruim, uma rápida visita a esta cidade o fará querer voltar correndo para São Paulo. Sabe aqueles vídeos do trânsito da Índia ou da China? Pois por lá é muito parecido, tirando as bicicletas, motos e carroças. O peruano gosta mesmo é de carro. E de todas as marcas e procedências diferentes. A frota do país vai desde carros muito antigos (majoritariamente) aos mais luxuosos e recentes lançamentos. O modelo mais encontrado é o Tico, carro que foi produzido até 2001 pela Daewoo. É o número um dos taxistas. Pequeno, desconfortável e caindo aos pedaços. Aliás, táxis é o que não falta na cidade. Posso afirmar com quase certeza que a frota de táxis na cidade chega a mais de 50% da frota total de veículos. É muito táxi, um atrás do outro, o dia todo.

Após entrar em um e combinar o destino e o valor, você passará a viver uma verdadeira aventura urbana. Carros enfiando na frente uns dos outros, fazendo conversões à esquerda (e fechando a rua perpendicular), congestionamentos e coisa do tipo. Ah, e a buzina. Buzinam pra tudo, se um carro entra na frente, se não entra, se quer entrar, se um pedestre está atravessando a rua. Até quando não tem nada à vista buzinam só pra não perder o costume. O barulho do trânsito é quase insuportável. A situação é tão grave, que as autoridades de trânsito chegam a fazer campanhas para o peruano parar de buzinar. Não é incomum vermos placas pedindo silêncio e tentando conscientizar a população para parar com o buzinaço gratuito. Mas não parece ter dado muito resultado. O interessante é que, mesmo com este caos, não há brigas no trânsito. No Brasil, se um carro buzina para outro, ele bota a cabeça pra fora, xinga, apela. Lá não. Como é um comportamento tão normal, ninguém apela, nem xinga, nem briga. Batidas leves, encostadas e arranhões nos carros também são comuns, e eles nem param pra ver o que houve. Seguem adiante. Fiquei pensando como o brasileiro é enjoado com carro e no trânsito. 

A falta de brigas no trânsito também é parte de um traço da cultura do peruano: a simpatia e amabilidade. Todos são sempre educados, simpáticos e solícitos. Principalmente os taxistas. A maioria gosta de conversar, e quando identificam que somos de fora, passam a nos contar curiosidades sobre a cidade e seus pontos turísticos. As músicas também variam bastante. Em cada táxi  uma sinfonia diferente. Entre os que pegamos, um ouvia uma rádio de notícias, outro o jogo entre Barcelona x Paris Saint-German, outro uma rádio de músicas pop em inglês (britney spears, etc). Mas a maioria ouve música peruana e ritmos latinos, como a salsa, merengue, mambo, cumbia e música andina em geral. Nada de música brasileira, a não ser num taxista do hotel que disse ter arrumado o Pen drive com um amigo para que os turistas brasileiros se sentissem em casa. Sai de Goiás pra ouvir Jorge e Mateus no Peru. Claro que não voltamos a pegar este táxi. 


A culinária peruana é bastante diversificada. Apesar de todos dizerem que se come muito bem no Peru, algumas diferenças no tempero e na forma de preparo causam certo estranhamento. O arroz faz parte do cardápio e é parecido com o nosso. Frango assado (naquelas TVs de cachorro) e churrasco também são muito apreciados, mas o prato típico de lá são as mariscadas e o Ceviche, um prato a base de peixe cru com tempero de sal, pimenta e limão. Quando já havíamos nos cansado de experimentar e provar estes pratos, acabamos nas sanduicherias mesmo. Entre as bebidas, as preferências são os sucos e a Inca Kola, um refrigerante típico peruano a base de uma planta chamada Lúcia-Lima, nativa da América do Sul e que tem um gosto alimonado. O sabor no entanto me lembrou uma essência de tutti-frutti ou chiclete, só que sem doce. A Coca-Cola também faz sucesso e pode ser facilmente encontrada. Entre as alcóolicas, o Pisco, uma aguardente que pode ser feita de Uva ou Madeira, conforme nos explicou um dos taxistas. Dela se faz o Pisco Sour, uma bebida que leva o pisco, clara de ovo e limão. O sabor lembra bastante a caipirinha, só que a consistência é mais cremosa.

A identidade latina é muito forte no país. Na TV e nas rádios a programação engloba sempre músicas e programas de língua espanhola de vários países latinos e da Espanha. Vendo esta integração entre os países de língua espanhola, percebo como o Brasil fica deslocado no contexto latino-americano. Pela língua, mas também pelos traços identitários e culturais de nosso povo. É como se o Brasil fosse uma ilha dentro da América, assim como os EUA. Mas estas são apenas impressões de um visitante ocasional. Carecem de maiores estudos e reflexões. De qualquer forma, a visita a Lima me fez repensar vários pontos de nossa cultura e de nosso povo. Por fim, percebi que o Brasileiro não é tão amável quanto pensava, que nosso trânsito não é tão ruim quanto imaginamos, e que nossa culinária é a melhor do mundo. Mesmo assim, a viagem a Lima é uma das experiências mais excitantes e diferentes que se pode fazer. 

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