15 de fev de 2013

50 tons de ilusão


Em 1843, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard escrevia um dos mais brilhantes tratados sobre a sedução. O livro em questão é O diário de um sedutor, e nele Kierkegaard narra, através de cartas, as aventuras do jovem Johannes e seu amor pelas mulheres. Mais especificamente por uma delas, Cordélia, a quem ele tenta conquistar. Narrando todas as artimanhas que ele usa para se aproximar da jovem, chamar sua atenção, até conseguir conquistar sua afeição e virar seu noivo, Kierkegaard reflete sobre as mulheres e a fascinação que estas inspiram nos homens. Em um dos trechos afirma ele:

É verdade que estou apaixonado, não há dúvida, mas não no sentido próprio, e a este respeito é também necessário ser muito sensato, pois as consequências são sempre perigosas; e só se está apaixonado uma vez, não é assim? Mas o Deus do Amor é cego e, sendo-se suficientemente astucioso, é possível enganá-lo. No que se refere às impressões colhidas, a arte consiste em ser tão receptivo quanto possível, e em saber aquela que se produz sobre as jovens, bem como a que estas nos provocam. Assim, pode-se estar apaixonado por muitas ao mesmo tempo; porque as amamos de diferentes maneiras. Amar apenas uma é demasiado pouco; amar a todas é uma imprudência de caráter superficial; porém, conhecer-se a si próprio e amar um número tão grande quanto possível, encerrar em sua alma todas as energias do amor de modo que cada uma receba o alimento que lhe é próprio, ao mesmo tempo em que a consciência engloba o todo - aí está o prazer, aí está o que é a vida.


De maneira poética e bela, Kierkegaard faz o retrato de um autêntico sedutor. Acima de tudo, Johannes é um homem que respeita e admira as mulheres, e procura a melhor forma de agradá-las e seduzi-las. Encara o amor como uma troca, em que ambas as partes se relacionam e procuram formas e estratégias para conquistar ao seu opositor, cada um com seu papel social e se atendo ao contexto da época. Por isto a obra continua atual. Ela não constrói um personagem ideal, um homem perfeito que irá chegar no cavalo branco, como é comum em outras obras. 


Mas, ao contrário do que ocorre na obra de Kierkegaard, a síndrome do príncipe encantado continua a assolar nossos tempos. A influência de algumas músicas e obras demonstra isto claramente. Parece que os contos da Disney ganham novas versões, mais adaptadas à linguagem de nossa época, e continuam criando uma geração de mulheres iludidas, projetando em cada homem uma idealização e se afundando em relacionamentos doentios e unilaterais. 


Entre os exemplos, a música de Roberto Carlos Esse cara sou eu constrói um personagem ultra-romântico que vive em função da mulher. Na letra, vários clichês do estágio de paixonite aguda que os filmes de Hollywood mantém vivos. Em suma, a música de Roberto Carlos apresenta um cara romântico que abre a porta do carro pra mulher, lhe manda flores e pensa nela o tempo inteiro. A letra apresenta um ideal de comportamento masculino que não existe, pelo menos não durante todo o tempo. O Cara da música de Roberto Carlos não pode ficar chateado, não pode ter problemas no trabalho, não pode ter um momento seu, não pode cair na rotina, pois tudo isto seria encarado pela mulher como falta de amor e de atenção, talvez. 


Além disto, a música mostra um ideal de relacionamento que se levado a sério pode levar a inúmeras desilusões. Quem já passou por relacionamentos sabe que eles tem altos e baixos, fases e diferentes momentos. Não dá pra ser romântico 100% do tempo, e nem o que se idealizou como romantismo (mandar flores, abrir porta de carro) pode ser considerado como romantismo de fato. Creio que há comportamentos muito mais relevantes e que devem ser considerados importantes numa relação, como a conversa franca, o companheirismo, a amizade, o respeito ao gosto e jeito do outro, etc. Um relacionamento baseado na anulação de um dos dois em função de satisfazer as vontades e caprichos do outro, como a música me parece sugerir, nem de longe é o que pode-se considerar como adequado. 


Pior ainda quando vamos analisar o personagem da novela a qual a música é tema. O soldado mostrado em cenas da novela Salve Jorge, personagem do ator Rodrigo Lombardi, é o típico exemplo de que a música de Roberto Carlos valoriza as qualidades erradas. Ele é tudo o que a música diz: bonito, educado, romântico. Mas suas atitudes para com a personagem principal, interpretada por Nanda Costa, mostram que isto não é o bastante. Ele é um cara inseguro, ciumento, irrascível, que não tolera ser contrariado e adora se fazer de vítima e ao qual a mulher tem que fazer de tudo para agradar, do contrário ele se chateia, fecha a cara, e corre pros braços da outra. Realmente um cara e tanto!



Na literatura temos um exemplo ainda pior. Trata-se da obra que já virou best-seller, 50 tons de cinza. A obra, que vem sendo considerada uma revolução na literatura feminina por trazer elementos eróticos à trama, apresenta a história de Ana Steele, uma estudante universitária estadunidense que conhece e se envolve com o excêntrico milionário Christian Grey. Aos poucos Ana vai descobrindo os segredos e muitas faces de Grey (daí o título original, que ao pé da letra seria algo como 50 tons de Grey, um trocadilho entre o nome do personagem, que também serve para denominar a cor cinza em inglês), e se vendo cada vez mais envolvida por ele. A obra tem algumas coisas interessantes, como descrever cenas de sexo explícito e valorizar mais o sexo numa relação, fugindo um pouco daquela moral puritana de condenação da prática e do que se relaciona a ela, o que pode levar a uma maior liberação feminina neste quesito (de ter consciência da sua sexualidade e saber o que quer e o que não quer a esse respeito).



Mas em contrapartida, a construção dos personagens da obra é um tanto curiosa. A personagem feminina é caracterizada como uma jovem ingênua, virgem, que não se interessa por outros garotos da idade dela e teve poucas experiências amorosas e nenhuma sexual na vida. Já o masculino é um homem seguro, milionário, bonito, educado e extremamente dominador, inclusive na vida íntima. Tanto é que para ficarem juntos, Grey impõe a Ana a assinatura de um contrato em que ela se compromete a fazer absolutamente tudo o que seu Amo (é exatamente assim que o livro se refere a ambos, Amo e Submissa) mandar e exigir. Além disto, ela passa a viver na casa dele, em um quarto exclusivo (ele não deixa ela dormir com ele, apenas transam e é cada um pro seu quarto) e a viver em função dele, tendo todos os seus passos controlados por GPS, e tendo que satisfazer todos os seus desejos sexuais. 


O que o livro descreve, pra mim, é o exemplo de um relacionamento doentio capitaneado por um psicopata. Nada contra o cara gostar desse tipo de perversão e nem de mulheres se submeterem a isto. O que me incomoda é a maioria das mulheres admirarem e ansiarem por conhecer um cara como Grey, e até mesmo cobrar de seus parceiros que ajam desta forma. Ou seja, tomem a história do livro como um modelo de relacionamento a ser seguido e buscado. Isto é bastante sintomático a meu ver. 

Talvez tudo isso seja reflexo da confusão de perspectivas amorosas existentes nos dias de hoje. A mídia vive a nos impor clichês que nos levem a buscar super-parceiros para nossos relacionamentos. A rotina é condenada como um inferno na terra, e eis que vemos nossos heróis e heroínas sendo cobrados o tempo todo, tendo que inventar algo diferente, que apimente a relação e coisas do tipo. Não se pode viver o sossego e o amor tranquilo. As aventuras amorosas da ficção são o modelo adotado, e querem nos convencer de que nossa vida é monótona e chata e nos levar a buscar o frenesí destas aventuras. Talvez, nestes tempos de ilusões, os conselhos de Kierkegaard tenham mais validade do que nunca. 

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