14 de jan de 2013

Uma viagem sonolenta


Livro e filmes tem linguagens bastante diferentes, isso é fato. Analisar um filme a partir do livro que lhe dá origem pode se um perigo e tanto. Ao mesmo tempo, perder de vista a história original pode nos fazer não ter uma visão tão completa assim da história. De qualquer forma, como diria o grande Pablo Vilaça, um filme tem que funcionar por si só, independente se você já leu ou não o livro. E neste caso, concordo absolutamente com ele. Este é precisamente o caso que analisaremos aqui: do filme "Cloud Atlas", que em português recebeu o título absolutamente ridículo de "A Viagem"

Como bem definiu o crítico Lucas Salgado no site Adoro Cinema, uma palavra que pode resumir bem este projeto é Ambicioso. Antes de ser lançado já dava pra perceber isto, pelo casting, pelos trailers e pela forte campanha de marketing. Na direção e produção, os irmãos Wachowsky e Tom Tykwer, responsáveis por grandes sucessos como Matrix e Perfume - A história de um assassino. Entre os atores, Tom Hanks, Hale Berry, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, entre outros. E os trailers deixavam entrever uma produção grandiosa, reunindo histórias de 06 épocas diferentes, com os atores se revezando entre os vários personagens, indo de cenários antigos a futurísticos. O fato é que toda esta campanha de marketing deu resultado, e os cinemas lotaram no fim de semana de estréia pra conferir o longa. 


Mas, da expectativa em relação a um filme para a sua execução há uma distância considerável. E aquela imensa quantidade de pessoas que vi saindo do cinema no meio do filme que o digam. O filme reúne 06 histórias diferentes, em 06 épocas diferentes. De um navio negreiro no período colonial até um cenário pós-apocalíptico futurista, passando pela história de um jovem compositor de música clássica do início do século XX, uma jornalista em busca de um grande segredo na década de 70, um editor falido internado pelo irmão num asilo e tentando fugir de lá nos dias de hoje e um futuro não muito distante onde as pessoas são produzidas em série para ocupar postos de trabalhos, num cenário bem aldoushuxleyano. 



São 06 histórias interessantes e que funcionariam muito bem sozinhas. Cada uma delas podia ser um filme tranquilamente. Mas a ousadia de reuni-las em uma única narrativa faz o diferencial aqui. Para o bem ou para o mal. O fato é que na telona a conexão entre elas não se dá muito bem. A narrativa entrecortada, indo de uma história a outra sem aviso prévio é um recurso já batido no cinema, mas se mostrou inadequado neste caso. Não que o filme tenha ficado difícil de entender ou de acompanhar. Conseguimos acompanhar perfeitamente as histórias. Mas o problema é que esta narrativa dava a entender que haveria um clímax que reunisse as seis histórias. Algum fato que as fizesse conectadas entre si de uma forma mais contundente e nos arrancasse um "Oh" da platéia. Mas infelizmente este clímax não vem, ou pelo menos não é como o esperado. Depois de um tempo de filme, o expectador só fica esperando como tudo isso irá terminar, e de uma forma impaciente. E quando começamos a reparar no quanto tempo de filme ainda falta meu amigo, é porque a coisa não vai nada bem. 



Entre as histórias, vemos os clichês futuristas já explorados por outros filmes como o próprio Matrix, Mad Max, THX-1138, entre outros. O enredo mais interessante é a da jornalista que descobre um plano de conspiração energética por parte das indústrias de petróleo para sabotar a energia nuclear, mas ela é ofuscada e mal explorada no meio das outras histórias. A mais fraca é a do navio negreiro, onde um advogado é lentamente envenenado por um médico que diz aplicar-lhe um remédio mas na verdade quer sua morte para se apoderar de seu ouro, e é salvo por um escravo. O personagem mais interessante é o compositor de música clássica que vive um romance secreto com outro homem da cidade, mas é a história que menos se conecta com as outras. E a parte que rende as melhores cenas são as da história do editor tentando escapar do asilo que fora internado à força pelo irmão, muitas destas cenas bem cômicas.


Ficamos o tempo todo procurando como estas histórias podem ter relação entre si, seja uma relação metafórica ou de fato. Procuramos um padrão, como por exemplo todas elas falarem de opressões, ou todas elas serem momentos que mudaram a sociedade da época. Mas logo percebemos que não dá pra comparar as histórias, por exemplo comparar o peso da escravidão com um monte de velhinhos fugindo de um asilo. E no caso do compositor, que opressão poderia haver? A única conexão entre as história são cartas deixadas em uma época que é lido pelo personagem da outra. Um elo muito fraco para que possamos dar algum sentido a tudo isto. 


Mas, mesmo assim, a ideia do filme não me saia da cabeça. Devia haver algo mais em relação a todas estas histórias. Pesquisando na internet então, descubro que ela é baseada num best seller. Lendo sobre a história do livro, tudo passa a fazer sentido. Na obra de David Mitchell, as histórias são apresentadas uma após a outra. Primeiro a história mais antiga no tempo, a do jovem sendo envenenado no navio negreiro, depois passando a do jovem compositor, conectadas pelas cartas do jovem advogado que são lidas pelo personagem posterior, e assim sucessivamente, até chegar na história, digamos assim, que conecta todas estas, a do futuro onde os seres são produzidos em série. Logo depois a narrativa começa a voltar a cada uma das histórias, em ordem inversa, apresentando os desfechos de cada uma delas. 


A conexão entre as histórias portanto está nos seus personagens. Cada um lê e vivencia a história do seu antecessor pelos relatos históricos deixados por cada um deles, e este relato afeta no seu cotidiano e na sua vida. No livro, as histórias funcionam muito bem, pois foram narradas de uma forma a dar sentido para quem a lê. Mas no filme, a narrativa entrecortada, misturando as histórias acabou cortando as relações entre elas. A narrativa do filme deixa-nos entrever que todas as histórias estão conectadas. Mas na verdade, ao nos voltarmos para o livro, percebemos que cada história se conecta apenas com a que a sucede no tempo, e não com todas as outras. Pelo menos não de forma tão direta. Assim ficamos perdidos em meio à narrativa rebuscada do filme, e por isto ele simplesmente não funciona. Seria melhor ter sido fiel a narrativa do livro, pois pelo menos assim o sentido das histórias teria sido mantido. 

Assim, "A Viagem" chega ao fim e ficamos nos perguntando o que faz e o que não faz sentido em meio a tudo o que vimos. Uma certeza fica clara: algo não funcionou muito bem em meio a tudo isto. Dizem que a ambição é a melhor amiga do fracasso. E no caso deste filme, as duas andaram bem juntas. 

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