3 de nov de 2012

Gonzaga - Música e História


Gonzagão e Gonzaguinha representam muito mais do que ícones da música brasileira. Representam duas faces da história de nosso país no século XX. Analisados isoladamente, parecem pertencer a universos completamente diferentes. Por isto mesmo não espanta que tenham tido tantos problemas de relacionamento, como é notório. Mas suas histórias se entrecruzam num choque de gerações, culturas, músicas, buscando equilibrar-se. Enquanto Luiz Gonzaga, o Gonzagão abraça a cultura do sertanejo (daquele que vive no Sertão nordestino), e principalmente, daquele que deixou sua terra para buscar uma nova vida no sul do país, Gonzaguinha é a voz contemporânea do jovem que cresceu em meio à ditadura, e sua música traz o posicionamento e o engajamento político que a época requer. Os conflitos com o pai ausente que marcaram sua infância fazem coro ao discurso político, tornando sua música algo ressentida, rancorosa, melancólica. 


Toda esta história é retratada no filme Gonzaga - De pai para filho, de Breno Silveira. A partir dele conhecemos um pouco mais sobre a história destes dois personagens tão controversos, e também um pouco da história nacional. Luiz Gonzaga é o retrato do imigrante nordestino, daquele que deixou sua terra para tentar a vida no sudeste em busca do discurso de vida melhor trazido pela então modernidade. E talvez seu sucesso se deva a isto: ao cantar a saudade da terra, os valores da cultura nordestina e sertaneja, a voz de Luiz Gonzaga encontra eco nos milhares de imigrantes que viviam nesta mesma situação. Isto é bem retratado no filme quando, depois de muito tocar ritmos "modernos" como o fado e a valsa com sua sanfona nos bares, um grupo pede pra ele tocar algo de sua terra, da qual eles sentem saudade. A partir daí Gonzaga percebe que o ritmo nordestino tinha receptividade, tanto pela saudade dos nordestinos que migraram quanto por ser novidade aos sulistas. 



Mas Gonzaga não percebe a mudança de valores e de tempos, e sua música entra em decadência. Considerado "O Rei do Baião", com o advento da ditadura novos discursos são requeridos. É hora de cantar o inconformismo, mesmo que disfarçado para fugir da censura. Neste cenário surge a voz de Gonzaguinha ao lado de tantos outros como Aldir Blanc e Ivan Lins, que compõem o pelotão de frente da música politicamente engajada. Do pai, Luiz Gonzaga Nascimento Júnior tem apenas o nome. Gerações diferentes, culturas diferentes, locais diferentes, sentimentos diferentes.



Mas a música é apenas o pano de fundo. Gonzaga - De pai para filho é um filme sobre a história de um pai e um filho, seus conflitos e seus choques. A negligência na criação do filho na infância, a dúvida da paternidade, os conflitos ideológicos da fase adulta e finalmente a catarse da discussão e do entendimento são o mote do filme. Com uma produção grandiosa e muito bem conduzida, Gonzaga faz jus a estes dois grandes nomes da música popular nacional. Com atuações afinadas, tanto de grandes atores já consagrados quanto desconhecidos, escolhidos entre milhares pela semelhança física com os cantores. Um grande diferencial deste filme é o uso de imagens reais dos dois cantores, filmagens e fotografias, junto com as imagens da ficção para retratar a carreira e a vida destes dois cantores. 


Gonzaga é uma aula de história. História de nossa música, história de nosso país, nossa cultura. E também a história de grande parte dos pais e filhos de nossa nação, seus conflitos e choques de gerações. 

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