17 de nov de 2012

A Falácia do Politicamente Incorreto


Ultimamente temos visto cada vez mais manifestações a favor do que vem sendo chamado de "politicamente incorreto". Seja no humor, na imprensa ou até mesmo na história, vez ou outra alguém se investe desta armadura para sair por aí distorcendo a realidade e apontando sua metralhadora giratória pra tudo e pra todos. Um dos casos que mais chamou a atenção e trouxe a comoção geral para este termo foi o caso dos humoristas, mais especificamente de Rafinha Bastos. Rafinha teve uma trajetória longa e conflituosa no CQC, programa de humor da bandeirantes. Após fazer piadas dizendo que mulheres estupradas deviam agradecer ao estuprador por serem feias, após ser proibido de vender seus DVDs por piadas com deficientes físicos, seu ápice foi com a piada de que Wanessa Camargo estava tão gostosa grávida que ele comeria ela e o bebê. Este foi o estopim da crise, quando Rafinha foi retirado da bancada do programa e teve que responder por um processo judicial da cantora, sendo condenado a pagar R$ 150 mil reais de indenização. 


Sempre que era procurado pelos jornais e em entrevistas, Rafinha se defendia dizendo ser este seu jeito de fazer humor. A patrulha do politicamente incorreto logo veio a tona para se manifestar. Se dizendo em defesa da liberdade de expressão, esta turma classificou os atos contra Rafinha como censura. Logo surgem os saudosistas, alegando que antigamente era melhor, que os Trapalhões podiam fazer piadas de negros e ninguém dizia nada e etc. Que bom que mudou né, se a sociedade não evoluísse ainda estaríamos matando mulheres que não se casassem virgem. Um grupo de comediantes chegou a fundar em São Paulo um espetáculo que chamavam de "Proibidão". Nele, antes de entrar todos assinavam um termo se comprometendo a não processar aos comediantes por qualquer piada que se fizesse ao longo do espetáculo. Claro que não adiantou, depois que um dos membros da própria banda que acompanhava aos humoristas no palco se sentiu ofendido por uma das piadas racistas que era feita e chamou a polícia. A proposta do show era fazer piadas discriminatórias contra gays, negros, deficientes e mulheres. Isto é o que chamam de "politicamente incorreto". 


Infelizmente tais casos jogam no lixo décadas e décadas de evoluções e avanços nos ramos jurídicos, da psicologia e da boa educação. É claro que o que é considerado normal hoje não é o mesmo de ontem. A sociedade muda, os valores mudam. Com o tempo a sociedade foi percebendo que fazer humor às custas de ofender aos outros não é legal, e foi criando meios de coibir tais práticas. Não é porque é classificado como humor que se pode falar o que quiser. Mas não são apenas os humoristas que invocam o direito ao "politicamente incorreto". Um grupo de jornalistas também o faz, e de uma maneira muito mais cruel. Seu alvo é a história de nosso país, que dizem desconstruir e mostrar "a verdade" por trás do que fala a historiografia oficial. Ou seja, jogam fora anos de estudos e pesquisas de historiadores, baseados em análises de fontes e com métodos científicos, para saírem por ai escrevendo coisas baseadas em achismos e suposições. 

Um exemplo é o livro Guia politicamente incorreto da história do Brasil, do jornalista Leandro Narloch. No livro podemos encontrar muitos exemplos de distorções da história, como o modo como ele caracteriza Zumbi dos Palmares como um senhor de escravos assassino e sequestrador de mulheres, as afirmaçoes de que "quem mais matou os índios foram os índios", e que a escravidão foi ensinada aos portugueses pelos próprios africanos. Ao fazer este tipo de afirmações, em primeiro lugar o autor, em nome de estar revelando o que considera como a "verdade", faz inferições parciais. Se tivesse frequentado uma faculdade de história, o autor saberia que esta "verdade" que ele tanto busca não existe na história, e que tudo não passam de reconstruções do passado, feitas por quem manipula as fontes e os fatos. Portanto, da mesma forma que o que ele chama de "historiografia oficial" é apenas uma versão dos fatos, a dele também o é. 


Em segundo lugar, o autor do texto em questão esquece-se de contextualizar muitas de suas informações, claro, de forma proposital para conseguir o impacto que tanto busca. Por exemplo, ao comparar a escravidão africana com a escravidão colonial, ele esquece-se de contextualizar as diferenças que haviam entre elas. A escravidão africana não tinha um viés racial como a colonial, não desumanizava os indivíduos, que permaneciam inseridos na sociedade. Aliás, escravidão é algo comum em toda a história da humanidade. Os gregos a praticavam. O que caracteriza a escravidão colonial, e que o autor faz questão de ignorar, é o viés ideológico que havia por trás dela, promovendo uma racialização e hierarquização das raças, promovendo o africano negro ao último grau da escala evolutiva (mais informações).


Portanto, simplesmente reunir estes fatos e comparações em uma obra e jogá-las como se fossem uma grande "novidade" não é o modo como opera a história. Leandro Narloch não é historiador, não frequentou uma faculdade de história, não conhece os métodos para se trabalhar fontes históricas e etc. Além do mais, seu livro tem um forte viés ideológico por trás. Ao tratar de questões como Zumbi e a escravização dos próprios africanos, sem contextualizar direito estes fatos, seu objetivo é o de fazer as pessoas refletirem no presente. Não é a toa que abordagens que visam diminuir por exemplo o feriado do 20 de novembro, as ações afirmativas e outros utilizando as justificativas do livro sejam tão comuns nos dias de hoje. 

Ser "politicamente incorreto" hoje tem um forte viés ideológico. O viés de se passar por cima do que é socialmente estabelecido, o viés de se buscar justificativas no passado para pontos de vistas elitistas e historicamente indefensáveis. No fundo não passa de uma grande falácia para justificar nossos preconceitos. Ao invés de buscarmos mudar, nos melhorar, nos livrar dos preconceitos, estamos buscando formas de aplacar nossa consciência. Resumindo: o que buscamos são desculpas para continuarmos sendo canalhas!

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