21 de ago de 2012

O sonho do branqueamento persiste

No século XIX, as teorias racialistas chegavam ao Brasil com força total. Em um país dominado pelo choque cultural entre colonos e africanos escravizados, tais teorias eram muito bem recebidas, e as elites intelectuais de nosso país tentavam a partir delas, explicar o "atraso" que viam na ex-colônia brasileira em relação a outras ex-colônias, como a dos Estados Unidos da América, por exemplo. O grande embate era responder a uma simples pergunta: porque os Estados Unidos deram certo, e o Brasil não?A reposta variava entre aspectos climáticos, geográficos e históricos. Mas uma das correntes que mais se destacou era a das explicações raciais. O darwinismo social acabou encontrando ressonância entre os intelectuais brasileiros e fornecendo o arcabouço teórico que permitia explicar o atraso brasileiro a partir da figura do negro. Colocado como último degrau da evolução das espécies, às ditas "raças" negras eram atribuídas uma gama de características negativas. A diferença entre a caracterização do europeu (branco) e do africano (negro) é bastante sintomática desta teoria:



Europeu: claro, sangüíneo, musculoso; cabelo louro, castanho, ondulado; olhos azuis; delicado, engenhoso, inventivo; coberto por vestes justas; governado pelas leis;
Africano: negro, fleumático, relaxado. Cabelos negros, crespos, pele acetinada; nariz achatado, lábios túmidos, astucioso, preguiçoso, negligente, governado pelo capricho¹.

Percebam que na caracterização das duas raças acima não são apenas características biológicas atribuídas a elas, mas também características psicológicas, comportamentais, políticas, sociais, etc. Esta era a base do racialismo considerado científico durante os séc. XIX e XX, e que chegam no Brasil. Identificado o problema do atraso brasileiro, portanto, faltava encontrar uma solução pra ele. E esta solução foi encontrada nas teorias do branqueamento, defendidas por diferentes autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero, por exemplo. O grande embate era se, através da miscigenação, era possível que a longo prazo tivéssemos um branqueamento da população, diminuindo o número de negros, ou uma degeneração, com um aumento destes. "A nação brasileira precisava enfrentar o problema no que entendia ser sua raiz última, qual seja, a fonte biológica; era preciso, numa palavra, branquear a população"².

Tais teorias não estão muito longes de nós. Foram desenvolvidas no século XIX, mas até meados do século XX ainda continuavam a ditar as regras para as populações negras que viviam em nosso país. Estão tão próximas de nós, na história, que parece influenciar intelectuais e autores ainda hoje em nosso país. O sonho do branqueamento ainda persiste na mente e nas letras de muitos. É o que podemos perceber num texto publicado este mês no Jornal Opção, de autoria de José Maria e Silva, intitulado "Uma educação que amputa o cérebro". Seu objetivo é analisar um vídeo promocional para as Olimpíadas, mas no texto sobram críticas ao modelo de educação para a diversidade étnico-racial adotado pelo MEC, às políticas públicas do governo petista, entre outros. 


Em primeiro lugar o que se percebe ao ler o texto é que o autor pouco conhece do assunto. Como alguém que foi obrigado, do alto de seu condomínio de luxo, escrever sobre cultura negra, e, claro, acabou enfiando os pés pelas mãos. É o que se percebe no trecho a seguir: 


Para completar, o documento do MEC chega a flertar com o pensamento mágico, que vê na cultura do negro brasileiro uma circularidade ancestral. Eis o que diz o texto, sentenciosamente: “E aqui vale uma pequena abordagem relativa à circularidade. Para a cultura negra (no singular e no plural), o círculo, a roda, a circularidade é fundamento, a exemplo das rodas de capoeira, de samba e de outras manifestações culturais afro-brasileiras. Em roda, pressupõe-se que os saberes circulam, que a hierarquia transita e que a visibilidade não se cristaliza. O fluxo, o movimento é invocado, e assim saberes compartilhados podem constituir novos sentidos e significados, e pertencem a todos e todas elas”.

Até onde eu sei, nada de anormal no texto do MEC. Na maioria das religiões ou formas de pensamento, o círculo é um símbolo que remete à passagem, à troca, ao retorno. Na cultura afro-brasileira, o símbolo do círculo pode ser encontrado no Candomblé, na capoeira, na Umbanda, e também em outras manifestações culturais. Mas a cultura afro não se restringe a isso, obviamente, como quer fazer parecer o autor na sua análise do texto:

Alguém consegue imaginar cientistas e matemáticos movimentando-se em rodas de capoeira para formular teoremas, descobrir o antibiótico, inventar o avião? Pensar é concentrar-se. Esse negro gregário, plástico, permanentemente aberto ao outro que o MEC inventa não é capaz de criar civilização — é objeto e não sujeito de sua própria cultura.

Esta foi a visão que o colonizador teve das sociedades africanas ainda no século XV: a de que ali não poderia haver civilização. O problema aqui não está no modo como o MEC caracteriza as sociedades africanas, mas sim no conceito de civilização adotado pelo nosso amigo. Para ele, somente o saber científico é válido, somente o conhecimento "ocidental" pode ser considerado como civilizado. Como fizeram Hegel, Gobineau, Lineau e outros, nosso autor elege um modelo de sociedade e imputa à todas as outras a necessidade que se adequem a ela. Faltou avisar ao nosso colega, que esta concepção de mundo (eurocêntrica, darwinista social, atávica) pertencem ao século retrasado, e já foram criticadas, entre outras, pela emergência da antropologia social e de outras teorias, como o pós-colonialismo. Algumas aulas destas teorias não fariam mal ao nosso autor. 

Segundo estes autores, não existe um só modelo de civilização. O próprio uso do conceito de "civilização" é problemático neste sentido. O que pode ser considerado civilização? Prédios, carros, estradas, poluição, guerras, miséria? O termo "civilização", assim como o de "tribo" é recorrente quando se quer inferiorizar ao "outro" apenas porque ele vive de forma diferente do "nós". Se for num terreiro de Candomblé, por exemplo, que é uma comunidade de matriz africana, respondendo à irônica indagação do autor ao questionar a existência de comunidades de matriz africanas no Brasil, provavelmente nosso José Maria iria se espantar e considerar os rituais ali praticados como selvagens, bárbaros e primitivos, como fizeram Nina Rodrigues e Silvio Romero no final do séc. XIX, que consideraram o transe realizado nestas religiões como uma espécie de "loucura" por parte do negro que os praticavam. 

Sobre essas danças, aliás, José Maria considera que enaltecer o caráter musical, dançante, artístico do brasileiro é uma forma de inferiorizar-lhe. Ele cita o estudo de Mary Karash, clássico sobre a escravidão, em que os escravos eram obrigados a dançar nas feiras em que estavam a venda, como forma de mostrar que estavam sadios. Sim, isto é verdade. Mas nem por isso a dança deve ser considerada como um agente do colonialismo. Na cultura de grande parte das nações africanas que aqui aportavam, a dança era uma parte importante de seus rituais religiosos. Tanto é que ela sobrevive até hoje nos terreiros, na capoeira e outras manifestações culturais de origem africana que sobrevivem no Brasil. Portanto, se nas feiras o escravo dançava porque era obrigado, nas horas de lazer e comemoração ele dançava sim, por livre e espontânea vontade, como demonstram diversos estudos e livros sobre a cultura afro-brasileira existentes. Sobre este tema eu recomendo a leitura do livro "Os sons dos negros no Brasil: cantos, danças, folguedos: origens", de José Ramos Tinhorão. Além disto, a dança é um elemento cultural universal. Praticamente todas as culturas do mundo desenvolvem tipos de danças, de músicas e outros. E elas não são incompatíveis com o estudo, com a produção de conhecimento, com o trabalho. Apenas que tudo tem sua hora e lugar. Ou será que nosso colega vai a uma festa e fica no canto lendo seu Paulo Coelho? 

Até entendo a necessidade de nosso autor de criticar os estereótipos construídos sobre o Brasil no vídeo. Mas daí a desprezar elementos históricos e inferiorizar traços da cultura africana que foi-nos deixado é um exagero. Em nenhum momento ninguém disse que no Brasil só há negros, dança, samba. Mas o vídeo representa um momento festivo, portanto nada mais justo do que mostrar pessoas alegres, felizes e dançando, e não há qualquer mal nisso. Aliás, nosso autor reclama que só há negros no clipe. Pois eu vi brancos e negros, vi atores, cantores, pessoas comuns, enfim, vi gente de todas as cores. Talvez fosse mais adequado ao nosso amigo uma orquestra sinfônica no clipe, já que ele tanto despreza certos valores culturais que são compartilhados por nosso povo, como por exemplo o funk do Mr. Catra, que embora ele não tenha gostado, talvez deva saber que há muitas pessoas em nosso país que gostam, e portanto não é o que uma pequena elite considera como "adequado" para se ouvir que deva ser levado em conta. 

Por último, a frase mais marcante deste texto, e que fecha bem o modo de pensar de nossas elites que se consideram brancos (existem brancos no Brasil?) tenta alterar os dados estatísticos demonstrando um tremendo desconhecimento a respeito das classificações "étnico-raciais" utilizadas pela academia: 

Os deuses do Olimpo são praticamente os únicos brancos do clipe. A inclusão do negro no imaginário visual do país está sendo feita à custa da exclusão do branco — que, no entanto, representa 47,7% do total de brasileiros, segundo dados do IBGE. Os negros propriamente ditos são apenas 7,6%. Mas como o governo petista — cavalo de santo do racismo de laboratório produzido pela academia — está empenhado em fomentar uma guerra racial no país, os negros passaram a ser chamados oficialmente de “pretos” (termo que até outro dia era amaldiçoado pela ditadura do politicamente correto) e, somados aos 43,1% de pardos — que foram enegrecidos à força — formam um contingente de 50,7% de negros estatísticos. Obviamente, essa população negra só existe na mente pueril das autoridades, teleguiada pela insanidade moral dos intelectuais universitários.

Acho que dá pra fazer uma dissertação de mestrado em cima desse parágrafo, tamanhas confusões de termos, conceitos e ideias aqui expressadas. Vamos com calma então, e começar do bê-a-bá dos estudos étnico-raciais (meus alunos de quinta série aprendiam isso comigo e talvez possam ensinar ao senhor José Maria). Em primeiro lugar, há uma diferença entre preto e negro. Preto é cor. Portanto, pode ser aplicado para cor de pele, assim como pardo. Negro é categoria social (recomendo a leitura do texto do prof. Kabengele Munanga que explica como chegamos a este conceito de categoria social para Negros). Na categoria social "negro" são englobados os pretos e pardos. Isto não é o PT quem diz, são os estudiosos e pesquisadores de nosso país. Um dos motivos para esse agrupamento é que são eles, pretos e pardos, a maioria dos que sofrem discriminação racial em nosso país (coisa que nosso amigo não deve conhecer, pois à sua volta só existem brancos). A propósito, o termo "preto" continua, como ele diz, sendo "amaldiçoado", pois ele adquiriu uma semântica negativa no imaginário popular, assim como outros termos como "macumba" por exemplo, e deve ser evitado. Assim não há nada de errado nas conclusões do MEC. Realmente podemos dizer que 50,7% da população brasileira é "negra" (não "preta"), pois na categoria negro são englobados as pessoas de cor "preta" e "parda". Ninguém foi enegrecido à força, com ele diz. 

Mas talvez este parágrafo seja sintomático de que o sonho de Silvio Romero deixou seguidores e defensores. O sonho do branqueamento de nossa população fica explícito no incômodo demonstrado com a presença do negro (seja preto ou pardo) nas tradições culturais de nosso país. Nosso amigo José Maria não se enrubesce nem se constrange em sair por aí destilando suas visões elitistas, aliado à sua falta de informação e desconhecimento de causa. Sofre do mal de todo jornalista: o de achar que é especialista em tudo e que portanto pode escrever sobre tudo. José Maria se insere entre os grandes pensadores da direita-neoliberal brasileira, como Diogo Mainardi, Pondé e aqueles caras dos Guias Politicamente Incorretos e da Veja. Seus textos são recheados com a mesma retórica de superioridade, a mesma paranóia direitista-canalha, e o mesmo desprezo por tudo que vem de baixo, que é negro, pobre ou como ele diz, "insalubre, malemolente". Deve se condoer de ver seus filhos estudando com os filhos da empregada, com alunos negros e indígenas, deve ter urticária de morar num país de tantos negros (tanto que quer embranquecer o país à força, como demonstra o parágrafo analisado acima). Fico feliz que os rumos de nosso país incomodem tanto a esta pequena casta branca herdeira de Gobineu que ainda resiste entre nós.


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Notas:

¹ Retirado do livro de Leila Leite Hernandez, a África na Sala de Aula, Cap. 1: "O olhar imperial e a invenção da África". São Paulo: Editora Selo Negro, publicado em 2005, pág. 19.
² Retirado do livro de Sérgio Costa, Dois Atlânticos: teoria social, anti-racismo, cosmopolitismo, Cap. VI "O racismo científico e sua recepção no Brasil", pág. 178.

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