21 de jun de 2012

O Elogio do Rústico



É fato que hoje as redes sociais dominam as relações na internet. Twitter e Facebook, só pra citar os mais utilizados, dominam as rodas de conversas, sejam informais ou profissionais. E, claro, há também os que são contras tais ferramentas. Um exemplo recente é o texto do jornalista Eugênio Bucci, publicado no site da revista Época, denominado: "Por que nunca entrei no Facebook". No artigo, o jornalista apresenta um argumento um tanto inusitado para tal feito. 


Antes que o acusem de "conservadorismo" ou "analfabetismo digital", ou mesmo que seja pela falta de privacidade, como muitos alegam, o mesmo se defende: 

"A fonte da minha resistência, contudo, não está nessa situação terrível, não da morte em vida, mas da vida em morte a que a grande rede pode nos sentenciar. Também não está nas fotos de gente sem camisa. A evasão de intimidades em que estamos submersos é a regra totalitária. Até mesmo a fé – algo ainda mais íntimo que o sexo – ganhou estatuto de espetáculo nas telas eletrônicas, e a transcendência do espírito se converteu em explicitude obscena. Entre o lúbrico e o religioso, não é o festival abrasivo nauseante de intimidades que me mantém distante. Não é também a frivolidade."


Tudo isto é colocado por inúmeras pessoas para defender a não utilização da rede. Não quero dizer que estas coisas não existam no Facebook. Pelo contrário, existe e muito. Cada vez mais me decepciono com o que é compartilhado por todos nesta rede. Religiosos tentando impor sua fé, pseudo-poetas tentando divulgar suas opiniões infundadas e vazias e coisas dos mais variados tipos infestam as timelines de quem possui conta lá. Mas isto não é suficiente para condenar a rede. Ela existe, tem uma quantidade de funcionalidades, e pode ser utilizada de inúmeras maneiras possíveis. O fato da maioria das pessoas usarem a rede apenas para compartilharem bobagens não inviabiliza a mesma. Se explorarmos as potencialidades que a rede tem, veremos que ela pode nos oferecer muito mais do que o cidadão comum utiliza. Eu, por exemplo, utilizo muito a rede para manter contatos profissionais (já fui convidado para ministrar palestras, dar aulas em especializações por exemplo), compartilhar conteúdos e textos com meus alunos através de um grupo, e divulgar eventos acadêmicos. Sei que assim é mais fácil atingir outras pessoas do que seria por e-mail. 

Mas este não é o ponto colocado por Bucci. Segundo ele, os motivos para não utilizar o Facebook estaria no comércio que é feito com quem possui conta lá, como ele nos explica:

"O que mais me afasta desse tipo de rede social é o comércio. Nada contra as feiras livres, que, em qualquer lugar, em qualquer tempo, concentram as mais autênticas vibrações da cultura (a melhor porta de entrada para o viajante que quer conhecer uma cidade é a feira livre). Agora, o comércio no Facebook é outra história. Ele é ainda mais funéreo que a presença dos clientes mortos que não pagam nem arredam pé. Ali, a mercadoria é o freguês, o que vai ficando cada dia mais evidente, com denúncias crescentes sobre o uso de informações pessoais mercadejadas pelos administradores do site. Ali dentro, as mais exibicionistas intimidades adquirem um sinistro valor de troca para as mais intrincadas estratégias mercadológicas."

Bom, se entendi bem, o jornalista está criticando o uso de informações pessoais pelos donos do site como forma de obter lucros? Não sei no que consiste exatamente esta denúncia (venda de banco de dados para empresas de marketing, talvez?), ou seria o próprio fato do dono do site lucrar com a rede? De qualquer forma, tal argumento deve ser questionado. Dizer que não tem facebook e culpar a geração de lucros por isso é no mínimo hipócrita, haja vista que vivemos em uma sociedade capitalista, e tudo, até este texto escrito por ele gera lucro pro dono do site em que ele foi publicado.Portanto, a não ser que ele viva em uma comunidade isolada em que todos os bens são partilhados por todos, melhor arrumar outro argumento para continuar não tendo facebook. Eu sugiro "conservadorismo". Ou "analfabetismo digital", talvez.

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