27 de abr de 2012

Cotas pra que te quero

Esta semana o assunto das Cotas para negros voltou à bola da vez. O motivo foi a votação entre os juízes do Supremo Tribunal Federal a respeito da constitucionalidade ou não da adoção de Cotas para negros, índios e estudantes de escola pública. Fosse outro grupo envolvido, nem precisaríamos discutir se a lei é constitucional ou não. Mas como é para minorias, há que se discutir. O temor maior neste caso, dizem os contrários, é que tal medida feriria o princípio de igualdade explícito na constituição.

Ora, muito bonita esta preocupação. Mas porque não a manifestam também quando negros são preteridos em vagas de empregos para pessoas brancas. Ou quando, ao longo da história, negros foram impedidos de frequentar escolas e determinados lugares destinados apenas aos brancos, fatos que desembocaram na marginalização e na desigualdade existente hoje. 

Dizer que a igualdade existe não acaba com o problema. Negros e brancos são iguais do ponto de vista biológico, isto é fato. Mas dizer que podem concorrer em situação de igualdade social é no mínimo irresponsável. A própria trajetória do negro demonstra que a negação de ocupar diversos espaços em nossa sociedade criou um enorme abismo social e econômico entre negros e brancos, abismo este que só irá aumentar caso algo não seja feito para mudar este quadro (NOGUEIRA, 2011, p. 12).


Não podemos voltar no tempo e corrigir os inúmeros equívocos realizados em relação à raça negra em nosso país, e que criaram a situação de marginalização e exclusão a que a maioria deles está exposta hoje. Mas podemos fazer algo daqui pra frente com o intuito de tentar amenizar ou corrigir esta desigualdade. Negros e brancos não concorrem em pé de igualdade, pois não possuem igualdade durante a vida. Entre um branco pobre e um negro pobre, as chances do branco crescer são maiores, pois ele sofre apenas um processo de marginalização. O branco pobre é excluído por que é pobre. O negro pobre sofre uma dupla exclusão, porque é pobre, e porque é negro. 

Outro discurso que procura atingir o movimento negro é o de que o problema no Brasil seria econômico, e não racial. Mas a própria análise dos dados é suficiente para quebrar este discurso. Isto porque a possibilidade de ascensão social de um branco é muito maior em relação a um negro na mesma situação. Além disto, vemos todos os dias negros que ascenderam socialmente mas que continuam sofrendo preconceito, o que demonstra que o eixo racial não pode ser desconsiderado em nossa análise (NOGUEIRA, 2011, p. 12).

Para um mesmo estrato de origem social, pretos e pardos enfrentam maiores dificuldades em seu processo de mobilidade ascendente, estão expostos a níveis maiores de imobilidade. O resultado é um perfil de realização ocupacional mais modesto para estes grupos e que só em extensão muito limitada pode ser atribuível às diferenças de origem social (SOUZA apud BERNARDINO, 2007, p. 76).


Dizer que o ideal seria então lutarmos para que negros e brancos tenham uma mesma formação seria chover no molhado. Todos sabemos desta necessidade de se melhorar as escolas públicas para que as classes mais baixas da população pudessem concorrer em pé de igualdade. Mas até quando vamos esperar esta melhora? Até quando vamos fechar os olhos e jogar o problema apenas para as escolas públicas? Isto é lavar as mãos e dizer que o problema não é nosso. 

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco (DOUGLAS, William, [S.D.]).


Façamos algo já! Tratemos o problema em todas as suas instâncias. Só assim poderemos garantir a tão sonhada igualdade entre brancos e negros. As cotas não são as medidas ideais. Queria eu não precisar delas para mudar este quadro. Queria eu poder dizer que a sociedade brasileira está se conscientizando de seu racismo, e que resolveu expurgá-lo de seu seio. Mas o que mais vejo é o contrário, é a negação deste racismo e de sua existência. É a tentativa de camuflar, de esconder o problema, e de esperar que ele se resolva sozinho. Mas sinto informar que ele não irá desaparecer. Cabe a nós combatê-lo. E temos que fazer isto já!

Referências

BERNARDINO, Joaze. O debate sobre ações afirmativas para negros na sociedade brasileira: argumentos a favor. In: SILVA, Marilena da; GOMES, Uene José (Org.) África, Afro descendência e Educação. Goiânia: Ed. Da UCG, 2006.

DOUGLAS, William. As Cotas para negros: por que mudei de opinião. Disponível em: http://www.pciconcursos.com.br/comopassar/as-cotas-para-negros-por-que-mudei-de-opiniao. Acessado em 27/04/2012.

NOGUEIRA, Léo Carrer. Discutindo o Racismo em Sala de Aula. In: Anais da X Semana de História da UFG, Goiânia, 2011. Disponível em: http://www.4shared.com/office/Yl7y1z5i/Artigo_-_Semana_de_Histria.html? Acessado em 27/04/2012.

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