3 de mar de 2012

O Direito à Preguiça


A sociedade moderna se cobre de mitos para controlar a ideologia das massas. Um deles é o mito do trabalho. Desde pequeno somos educados para valorizar o trabalho, sempre ouvimos frases como "O trabalho dignifica o homem". Assim, numa época em que a revolução tecnológica, ao invés de gerar empregos como a revolução industrial o fez, gera o desemprego, substituindo milhares de trabalhadores por máquinas, fica difícil conciliar a necessidade do trabalho com a realidade. Nas campanhas presidenciais, as principais promessas geram em torno do emprego, que é a principal reivindicação da população em geral.



Tudo isto acontece por que o homem não soube lidar com o desenvolvimento tecnológico, fazendo do trabalho uma religião, um vício. No século XIX, aos poucos as máquinas vão substituindo o trabalho do homem. Como previu Aristóteles, o dia em que as máquinas trabalhariam sozinhas chegou. O trabalhador então, deveria trabalhar menos, e receber mais, já que a máquina produzia muito mais do que ele, no mesmo espaço de tempo. Mas não é isso o que ocorre. Os burgueses concentram todo o lucro em suas mãos, e simplesmente dispensam os trabalhadores. Os trabalhadores, ao invés de trabalharem menos, passam a trabalhar mais, passam a concorrer com as máquinas. Com o número enorme de desempregados, chamados por Marx de "Exército de reserva", as condições de trabalho decaem, já que com medo do desemprego, os operários se sujeitam ás piores condições de trabalho possíveis. 


O trabalho, como é escasso nos dias de hoje, deveria ser racionalizado. Em primeiro lugar, a produção deveria ser compartilhada com todos igualmente. Em segundo lugar, o trabalho também deveria ser compartilhado. Como? Fazendo com que a jornada de trabalho seja de 3 horas diárias, e somente durante os 6 primeiros meses do ano. No restante do tempo o trabalhador teria o tempo livre para a prática da preguiça, o que lhe permitiria um acesso à cultura e ao lazer, que hoje são regalias da elite que não trabalha, pois tem quem o faça por ela. 


Quando os europeus chegaram à América, chamaram os índios de preguiçosos, pois eles só trabalhavam 3 horas por dia. Acontece que durante estas poucas horas, os índios conseguiam produzir o alimento necessário para abastecer toda a tribo. Durante o resto do tempo o índio se dedicava às atividades de lazer e religiosas. Com o avanço tecnológico moderno, deveria Ter acontecido o mesmo conosco, não fosse a ganância dos burgueses, que ao invés de trabalharem menos com a utilização das máquinas, criou a religião do trabalho, obrigando ao operário que trabalhasse mais, sob piores condições. 



Todas estas idéias estão contidas no livro "O Direito à Preguiça", de Paul Lafargue. Escrito em 1880 na França, sob influência direta das idéias marxistas, o livro denuncia a exploração do trabalhador francês, e aponta os melhores caminhos para combatê-la. Paul e Laura Lafargue, sua esposa e filha de Karl Marx, foram grandes defensores da revolução socialista, e se suicidaram em 1911, aos 70 anos de idade, por acharem que sua velhice seria um peso para eles e para os outros, coisa que eles não queriam. Juntamente com o Manifesto Comunista, O Direito à Preguiça está entre as principais obras revolucionárias socialistas de todos os tempos. A edição brasileira vem com um excelente prefácio de Marilena Chaui, o que torna esta obra ainda mais interessante.

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