27 de jan de 2012

Os Horrores da Guerra

Filmes de guerra temos aos montes, com vários enfoques e estilos imaginados. Por isto qualquer um que se dedique a fazer um filme com esta temática hoje deve ter o cuidado de trazer algo novo e diferente. E é isto o que faz Spielberg neste "Cavalo de Guerra". O filme se passa durante a primeira guerra mundial, e traz como protagonista um cavalo. Isto mesmo, um cavalo, desde o seu nascimento em uma fazenda no interior da Inglaterra até chegar às arenas de batalhas, o filme passa por vários climas diferentes para mostrar a vida deste animal, e utiliza a primeira guerra mundial como pano de fundo. Desde seu nascimento, o cavalo Joey e o jovem Albert iniciam uma estranha relação de amizade que os levará por uma jornada nunca antes imaginada. Ao precisar de dinheiro, o pai de Albert vende o cavalo para as tropas inglesas, separando-os.

A partir daí o filme mostra a jornada de Joey, sempre entre batalhas, capturas e trabalhos forçados, hora no exército inglês hora no alemão. Os horrores da guerra são explorados em todos os seus limites e como ela afeta a todos a sua volta, envolvidos diretamente ou não. É o caso da jovem Emilie, uma garota francesa que vê a guerra chegar ao seu quintal quando sua casa é saqueada pelo exército alemão em busca de alimentos e utensílios. É o caso dos jovens irmãos Michael e Gunther, alistados no exército alemão que tentam fugir quando um deles é mandado pro front de batalha. É o caso dos milhares de jovens, que tem suas vidas interrompidas quando são enviados ao front de batalha. 

O filme é muito rico em detalhes históricos. Seu início mostra como as relações de produção no campo por exemplo remontam a uma tradição feudal ainda existente no imaginário local. Apesar de estarmos falando de século XX, a relação do senhor da terra com os camponeses permanece, ainda que capitalizada e modificada em vários aspectos, quase que feudal. Isto mostra como os processos na história são lentos e entrecortados. Apesar de, didaticamente, o feudalismo ter acabado há pelo menos dois séculos, relações semi-feudais permanecem por muito tempo ainda. Isto porque as mudanças na história são um processo lento e demorado. 

Outro aspecto a se ressaltar é a mudança de mentalidade em relação à guerra. A ideia de guerra que permanece no imaginário inglês ainda é uma guerra muito formal. No início da guerra, em 1914, vemos a utilização de cavalos e espadas, uniformes limpos e até a preocupação com o polimento dos metais. Mas os tempos são outros, e o jovem exército inglês logo aprenderá. As batalhas de campo aberto dão lugar à guerra de trincheira, as espadas dão lugar às baionetas, e os cavalos dão lugar aos canhões. Assim a passagem para a modernidade vai se completando aos poucos. 

Em meio a tudo isto, o bravo cavalo Joey encontra sempre pessoas que não se importam e outras que procuram defendê-lo. O amor pelos animais talvez seja a forma mais universal de amor existente. Independente do país, língua ou cultura, ele sempre está presente. Há quem diga que conhecemos o caráter de uma pessoa pelo modo como ela trata um pobre animal indefeso. A cena mais emblemática do filme é quando dois jovens combatentes, um alemão e um inglês, se juntam para livrar Joey que estava preso em arames farpados prestes a morrer. A cena é belíssima, mostrando que no meio daquela estupidez toda há jovens com sentimentos e cansados de todo aquele horror. 

Assim Spielberg mais uma vez consegue nos emocionar ao contar a história do cavalo Joey. Talvez o maior mérito do filme seja o de não divinizar nem demonizar a nenhum dos lados. Pelo contrário, com a relação com o animal, Spielberg humaniza seus personagens, independente do lado em que estão. Alemães, ingleses ou franceses, todos se emocionam ao conhecer Joey, e nós nos emocionamos ao conhecer sua história, magnificamente contada neste filme. 

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