10 de jan de 2012

O vento será sua herança


O homem é o único animal capaz de pensar. E a humanidade sempre se gabou de sua capacidade de elaborar complexos raciocínios. Sempre aprendemos nas aulas de ciências que somos os únicos animais racionais dentre todas as espécies existentes. E mesmo assim, muitos são aqueles que, em algum momento da história, foram impedidos de exercer livremente este dom que nos torna únicos em todo o mundo. Sócrates, Galileu, Copérnico, Darwin, e diversos outros, perseguidos apenas por defenderem o livre-pensamento. Muitos morreram para que hoje eu pudesse estar aqui escrevendo este texto. Mas infelizmente muitos ainda tentam manter de pé as cortinas que deixam o homem na escuridão. E, na maioria das vezes, esta cortina tem as cores de uma religião.



Foi assim com todas as grandes ideias que desafiaram as "verdades" instituídas pelo pensamento religioso. Infelizmente a maioria das religiões leva a uma cristalização dos conhecimentos que não permite outros pontos de vistas. E esta cristalização normalmente leva também a atitudes de intolerância com aqueles que pensam diferente, por medo de abalarem suas "verdades" e assim perderem a hegemonia e o controle sobre o pensamento do povo. Um ótimo filme a tratar deste assunto é o clássico "O Vento será sua Herança", do cineasta Stanley Kramer. O filme é da década de 60, e conta a história de Bertram Cates, um professor de uma escola pública da pequena cidade de Hillsboro, no estado do Tenessee. Após começar a ensinar sobre as teorias evolucionista de Darwim em suas aulas, o professor é preso por infringir uma lei estadual que impede que outras ideias que contrariem o criacionismo sejam ensinadas. 


Tem início então uma batalha judicial que vai transformar a pequena e católica cidade em um verdadeiro campo de batalhas. No ringue, advogado e promotor travarão uma batalha de discursos inflamados, que desde  início se mostra uma batalha injusta, já que toda a conservadora comunidade da cidade se mostra contra o professor e seus ensinamentos. Logo réu e advogado descobrirão que talvez estejam lutando contra moinhos de ventos. E o pior é que o filme é baseado em uma história real de 1925. Este filme me fez lembrar muitos momentos que passei na vida e especialmente neste último ano. Chegar em uma comunidade diferente e lidar com pessoas que não estão abertas a novas ideias e a mudanças é sempre difícil. O pior de tudo isto não é nem a discordância, afinal, nem todos devem pensar da mesma forma, isto é natural e absolutamente saudável. Mas o pior destas situações é a total falta de abertura sequer para ouvir aquele que pensa diferente.


Os debates de ideias são sempre importantes. Afinal, a humanidade não chegou ao estágio em que está com homens que pensavam sempre da mesma forma. Se fosse assim, ainda estaríamos morando em cavernas e caçando veados para comer. Se os homens não estivessem em desacordo com os padrões de sua época, não procurassem novas formas de pensar, de enxergar as coisas, nada teria sido inventado. Claro que nem toda mudança é positiva. Mas o debate é essencial. E estar aberto a novas ideias é sempre importante. Nem sempre as ideias são inconciliáveis. A cena mais emblemática do filme é uma em que o advogado defensor do darwinismo, logo após o encerramento do julgamento, está sozinho no tribunal arrumando suas coisas para ir embora. Ele segura o Livro das Espécies, de Darwim numa mão, e a Bíblia na outra, balançando ambos como se quisesse sentir o peso de cada um. Depois ele coloca os dois embaixo do braço e vai embora, como se concluísse que ambos tem o mesmo peso. As ideias sempre devem ser respeitadas. Elas sempre tem o mesmo peso, independente de quem se ache certo ou errado. 

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