24 de ago de 2011

A Melancholia de Lars Von Trier

Lars Von Trier é um gênio. Mas só às vezes. Depois de se consagrar pelo genial Dogville, filme que se tornou cult por apresentar um estilo teatral, sem cenários e todo filmado em cima de um palco, onde as casas, portas, tudo eram apenas riscos no chão, e uma história excelente que mostra o lado vil da humanidade, mesmo nos recantos mais distantes do mundo. Sua continuação, Manderlay não fez tanto sucesso, mas continuava com a mesma fórmula, e é um bom complemento ao primeiro, sem o mesmo impacto inicial no entanto. 




Após estes dois filmes passei a acompanhar a carreira de Lars com algum interesse e curiosidade. Seu próximo filme seria o desconhecido O Grande Chefe, outra grande sacada do diretor. Aqui vemos ele flertar com a comédia, em um filme que conta uma história totalmente inusitada: um pequeno empresário que inventa para seus funcionários que ele na verdade não é o dono da empresa, e que é o verdadeiro dono, que nunca aparece (porque não existe , evidentemente), quem toma as decisões na empresa. Assim todas as ordens que ele precisa tomar, como mandar embora um encarregado ou promover outro, ele atribui a este chefe distante. O problema é que os funcionários começam a pressioná-lo para conhecer este chefe, e então o dono se vê obrigado a trazer alguém para apresentar como este chefe. Ele contrata então um ator falido da cidade, que terá a missão de se fazer passar pelo verdadeiro dono da empresa. Só que o ator começa a interferir no andamento da empresa, começa a dar ordens por conta própria, e acaba criando a maior confusão no lugar.


Como eu disse anteriormente, este filme não fez muito sucesso e é praticamente desconhecido do grande público. Mas é ótimo e muito recomendado. Mas o melhor da carreira de Lars ainda estaria por vir. O Anticristo é um dos melhores filmes que já vi, ouso dizer melhor até do que o próprio Dogville, considerado a obra-prima do diretor. Um filme soturno, melancólico, violento, tudo dosado na medida certa. Aqui vemos a história de um casal que após perder seu filho, se refugiam numa casa de campo para tentar esquecer o trauma, mas coisas estranhas começam a acontecer. Com apenas dois personagens, interpretados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, o filme consegue nos prender, e o final é de uma crueza e genialidade extremas. 


O mais recente filme de Lars, que está em cartaz nos cinemas, Melancholia utiliza a mesma fórmula do seu antecessor, mas sem a mesma genialidade. Os elementos aqui parecem não se encaixar. Tudo o que vemos em Anticristo está lá. A fotografia escura, tornando o filme meio cinza, nos passando uma impressão melancólica o tempo todo, um cenário desolado, afastado da civilização, uma situação surreal, aqui representado pela aproximação de um planeta da Terra, em Anticristo representado pela fixação da mulher pela bruxaria medieval, a utilização do sexo e da nudez, aqui menos explorados mas não menos presentes, diálogos estranhos e non-senses, personagens colocados em situações extremas obrigados a testar seus limites.


Mas todos estes elementos, que em Anticristo foram trabalhados de forma surpreendente e deram coesão ao filme, aqui parecem não se assentar. Tudo parece meio desconexo, sem relação com o todo. O filme é dividido em duas partes. Na primeira delas, vemos a história do casamento de Justine, interpretada por Kirsten Dunst, uma mulher frustrada, que não está feliz com a vida que tem, mas que mesmo assim continua a viver de aparências. Muitos acham esta primeira parte do filme a menos importante ou interessante. Pois eu achei justamente o contrário. Para mim, esta parte trabalha algo em nós que é recorrente. Momentos de alegria, onde tudo a nossa volta parece bem, mas lá no fundo não conseguimos nos sentir felizes, não conseguimos nos adaptar ao mundo à nossa volta. No início vemos a felicidade de Justine com o casamento, mas aos poucos vamos percebendo outros elementos, a loucura do pai, a mesquinhez da mãe, a dominação da irmã, a ambição do chefe e a melancolia de Justine, que parece não conseguir se adaptar a este mundo. Aqui é onde o filme consegue desenvolver melhor uma fábula dos sentimentos humanos.


Na segunda parte, considerada por muitos a principal do filme, a protagonista é Claire, irmã de Justine, interpretada novamente pela excelente Charlotte Gainsbourg. O tema aqui se volta para os astros, onde um evento surreal irá marcar o planeta Terra para sempre. A passagem de um planeta chamado Melancholia próximo à Terra divide a opinião dos cientistas. Alguns dizem que este não irá se chocar com a Terra, enquanto outros dizem que irá destruir toda a nossa civilização. Tais discussões mexem com o casal John (Kiefer Sutherland), um estudioso dos astros, que defende que o planeta não irá se chocar com a Terra e Claire, que teme o contrário. Muito longe de repetir o nível de tensão que vemos em Anticristo, apesar de tentar usar os mesmos elementos, o filme traz uma visão pessimista e melancólica da humanidade. Em uma de suas frases, chega a decretar que "Ninguém sentirá falta da Terra". Assim, ele passa a se tornar um retrato apocalíptico de nossa condição humana. No entanto algo parece faltar, um detalhe que dê sentido à toda esta história, como Lars soube fazer tão bem em Anticristo. No final saimos do cinema com uma sensação de que poderia ter sido melhor. Mas Lars sabe o que faz. Talvez fosse pra ser assim.

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