15 de ago de 2010

Vá de retro!


Satanás, capeta, demônio, tinhoso, diabo, cão danado, enfim, são diversos os nomes que ele recebe. Mas uma coisa é unânime: a figura do coisa-ruim no Brasil têm interpretações variadas, que vão do caricato ao diabólico propriamente dito. O fato é que o Diabo como personificação do mal absoluto, conforme a concepção cristã o pinta, no Brasil nunca vingou de todo. São vários os relatos ao longo de nossa história colonial de casos em que o diabo era adorado, invocado e até confundido com figuras brincalhonas e personagens malandros de nosso folclore, como o próprio Saci-Pererê, o Zé Pelintra, Pedro Malasarte, entre outros.

A noção de bem e mal sempre permeou o imaginário humano. Durante a antiguidade, os principios de mal e bem estavam diluidos em suas divindades, como é o caso mais conhecido dos deuses gregos e romanos, concebidos com características humanas, como amor, ódio, inveja, ou seja, tanto características boas quanto más. Uma das primeiras religiões a surgirem com a divisão entre o bem e o mal foi o Zoroastrismo, na Pérsia, na qual Ahura Mazda é a divindade suprema, criador de todas as coisas boas, enquanto Ahriman é o principio destrutivo e maligno.

Outros povos costumavam considerar como demônios os deuses de seus inimigos. Este é o caso do povo Hebreu, cujos principais demônios eram na verdade deuses cultuados por outros povos, como é o caso do deus assírio Baal, deuses egípcios, entre outros. Esta idéia de personificação do mal, já presente na cosmologia hebraica foi herdada pelo cristianismo, e em contraposição à figura divina de Jesus, concebeu a figura do Demônio (do grego Daimon, que significa "inteligência"). Portanto a doutrina cristã foi concebida inteiramente calcada na dicotomia entre a figura do Cristo, deus criador que representa o bem, contra a figura do Diabo, anjo caído que representa o mal absoluto.

Em várias outras religiões a idéia de um deus para representar o mal absoluto é totalmente desconhecida. É o caso da religiosidade de um povo africano que influenciou a formação de nossa identidade nacional brasileira: os povos nagôs, ketus, ijexás, efans e vários outros que habitavam a região da Iorubalândia, região que atualmente está localizada entre os países do Togo, Benim e Nigéria, e que eram marcados pelo culto aos Orixás. Os Orixás são um conjunto de divindades cultuadas por estes diversos povos, dotados de características humanas, e que não possuem uma ética cristã, ou seja, trazem dentro de si princípios positivos e negativos.

Dentre estas divindades, uma delas foi duramente combatida pelos primeiros missionários cristãos que chegaram à África no período colonial, e logo associada ao diabo cristão. Trata-se de Exu, divindade que na África tem diversas funções, entre elas a de intermediar o contato entre os homens e os deuses, além de ser o encarregado por Olodumaré (deus supremo) de ser o oposto da criação, aquele que traz o caos e a desordem. Como no pensamento cristão não existe o meio-termo, tudo o que não é bom só pode ser mal, logo Exu ganha ares diabólicos.Esta fusão entre Exu e o Diabo no Brasil vai influenciar de forma cabal a nossa religiosidade, tanto a religião católica quanto as religiões afro surgidas do contato cultural entre brancos e negros.

A figura do Diabo no Brasil colonial passa a agregar uma série de personagens contraventores, e representar em alguns casos um símbolo de resistência ao opressor colonizador. Assim é que se multiplicam por aqui os casos de pacto com o diabo, e de pessoas que preferem recorrer a ele para fazer pedidos do que aos santos católicos, considerados bons demais para atender certos tipos de pedidos.Tanto Exu quanto o Diabo se tornam assim figuras emblemáticas do imaginário brasileiro, atendendo aos pedidos e realizando aqueles desejos mais íntimos, geralmente relacionados a aspectos do ser humano que na tradição cristã são relegados, suprimidos e reprimidos, como o sexo, questões de dinheiro, amor, política, entre outros. Assim, enquanto Exu ganha características diabólicas, o Diabo também se exuniza, ganhando características do Exu.

E é interessante notar como estas duas figuras são retratadas em nossa cultura popular atual. Um grande exemplo é o cinema, onde três filmes recentes utilizam da figura do Exu ou do Diabo. Na primeira delas, o Cafundó mostra um Exu brincalhão e contraventor, para o qual nosso protagonista, o preto-velho João de Camargo tem que pedir licença para fundar sua igreja. A concepção iconográfica deste Exu prefere se ater ao imaginário que os iorubanos possuem de seu orixá, ele se apresenta como um negro robusto e elegante com um terno preto, camisa vermelha, e sem deixar de lado seu charuto. Aqui Exu é provocador, brincalhão, exatamente como nas histórias e lendas africanas sobre os Orixás.

Já no filme Tapete Vermelho, o Diabo é mostrado como típico personagem do folclore brasileiro. Aqui ele vem na figura de um violeiro, e propõe um pacto a quem interessar possa: ele torna a pessoa um grande tocador de viola. Em troca é claro, a alma do coitado. Portanto, ele surge como uma figura capaz de atender aos nossos desejos e satisfazer nossas ambições. Mas em troca deve ser pago. Sua concepção iconográfica é mais moderna, ele vem como um tocador de viola, roupa preta, botas elegantes, um chapéu e fala manso. Mas na hora H ele se transforma, e seus cascos aparecem.

Mas o mais interessante de todos é o diabo retratado no filme O Homem que Desafiou o Diabo. Aqui ele mistura as duas figuras, se tornando um Diabo-Exu. Ele se apresenta com um terno branco, dois discretos chifres em sua testa e uma bengalinha. Mas quando ele começa a falar, pra quem já foi em um trabalho de Umbanda não há como deixar de associá-lo a um Exu incorporado. Ele vêm para cobrar uma parte de um tesouro que um preto-velho lhe havia prometido, e não dá sossego enquanto não consegue, afinal, não se pode deixar de pagar ao coisa-ruim.

Exu ou Diabo, o fato é que estes dois personagens fazem parte de nossa cultura, e no imaginário popular ganham contornos menos maléficos do que na concepção cristã ortodoxa, se transformando em figuras que podem ser invocadas, negociadas, e às vezes até se transformando em personagens brincalhões, que gostam de pregar peças nas pessoas, como nas histórias do bom e velho Saci. Tudo isto é fruto de uma importante ressiginificação ocorrida com estes personagens ao longo de nossa história, que os transformaram em verdadeiros símbolos de nossa cultura aviesada. Para o bem ou para o mal.

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