17 de ago de 2010

A Origem do Mal

Hannibal Lecter é um dos personagens mais fascinantes da história do cinema. Na pele do genial Anthony Hopkins, o Dr. Lecter, ou "Hannibal the Cannibal", como é conhecido em seus filmes, nos é apresentado como uma pessoa culta, refinada, de hábitos e gostos finos, mas que esconde um excêntrico gosto pela carne humana, além de não ter qualquer pudor ou receio em matar suas vítimas pessoalmente. Sua frieza aliada a sua inteligência incomum é o que fazem dele um gênio, difícil de ser analisado, e mais ainda de ser compreendido. Todo gênio possui suas excentricidades. Assim, classificar Hannibal de louco, insano, psicopata, é, no mínimo, um insulto à sua nobre pessoa. O renomado Dr. Lecter é, antes de tudo, um gentleman. Mas é sabido também que a nobreza anda junto com a lascívia e esconde um certo gosto pelo vulgar, principalmente porque a vulgaridade está presente no mais íntimo do homem. Portanto, o Dr. Lecter também se permite seus momentos de vulgaridade e lascívia, especialmente quando confrontado com criaturas toscas.

Em sua primeira aparição no filme O Silêncio dos Inocentes, Hannibal é procurado por uma agente do FBI para ajudar a resolver um caso e capturar um perigoso serial killer, conhecido como "Buffalo Bill", pelo fato de arrancar a pele de suas vítimas. Apesar do filme não entrar em detalhes, o Dr. Lecter não é procurado apenas por ele mesmo ser um psicopata. Na verdade, ele é um renomado doutor em psiquiatria forense, ramo da psiquiatria que procura estudar a personalidade, e que se preocupa com a "compreensão das respostas mórbidas da personalidade aos agentes externos ou endógenos." Logo de cara percebemos que o grande lance do filme é a tensão entre o Dr. Lecter e a agente Starling. Ao ouvir todas as histórias contadas sobre ele, o medo não poderia deixar de fazer parte da agente, e o encontro inicial dos dois traz um misto de medo e fascínio, ao confrontarmos a história de Lecter e seus crimes brutais com a figura simpática e cordial que vemos em tela. Isto o torna ainda mais misterioso e sinistro. Seu diálogo é recheado de metáforas e seu olhar é penetrante e desafiador. Em meio a esta investigação, Clarice e Lecter estabelecem um vínculo rápido mas duradouro, que renderia ainda outro filme. Com sua fala mansa e sua objetividade, sempre indo direto ao ponto, o Dr. Hannibal se torna um personagem cativante, e eis que nos pegamos torcendo por ele em sua fuga alucinada do presídio.

O título do filme em português para muitos parece um tanto enigmático, e confesso que eu mesmo nunca havia entendido o porque deste título. Até que um dia busquei a tradução do título original, The Silence of the Lambs. Lamb, na verdade, significa cordeiro. O título se refere à parte em que Clarice, ao contar sua história ao Dr. Lecter, relata que ainda hoje ouve o grito dos cordeiros que ela ouvia serem tosquiados quando jovem, e que um dia tentara salvar. Uma alusão aos traumas de infância que ajudam a formar nossa personalidade. Na interpretação de Lecter, Clarice busca salvar as pessoas para assim parar de ouvir o grito dos cordeiros. The Silence of the Lambs, portanto, remete ao final da saga, quando um dia ela conseguir encontrar a paz que tanto busca, ou seja, quando os cordeiros pararem de gritar. Motivação parecida move o Dr. Lecter, como veremos mais adiante.

Como citei, a relação entre Hannibal e Clarice renderia um segundo filme dez anos depois do primeiro. Hannibal é o segundo filme da série, que traz de volta os dois personagens, mas agora tendo como foco principal o próprio Hannibal. O filme é bem inferior ao primeiro, mas a presença de Anthony Hopkins novamente dá um certo charme à trama. A agente Clarice agora é interpretada pela bela Julianne Moore. No filme, após fugir da prisão, Hannibal se refugia na Itália. Mas uma nova trama de acontecimentos faz com que Hannibal e Clarice se reencontrem, agora com ele solto. Um novo personagem é introduzido na trama. Trata-se de Mason Verger, uma das vítimas de Hannibal no passado, antes dele ser preso, o único que teria sobrevivido. Hannibal teria dado-lhe um alucinógeno, e lhe sugerido que ele cortasse seu próprio rosto. Totalmente louco e dopado pelo remédio, Mason faz o que o dr. pede, e retalha completamente seu rosto, enquanto ri e grita euforicamente. Hannibal assite a tudo pacientemente, com sua frieza habitual. Mason tem o rosto deformado por causa disto, e se torna um milionário em busca de vingança. Somos levados assim a adentrar um pouco mais do complexo universo de Hannibal the Cannibal.

No filme Dragão Vermelho, voltamos ao passado, antes de Lecter ser procurado pela agente Starling, e conhecemos o policial responsável por sua prisão, Will Graham, interpretado pelo sempre competente Edward Norton. O filme começa com a prisão de Lecter, que, como psiquiatra forense, ajudava Will a investigar o perfil psicológico dos seriais killers. Ao ajudar a investigar os crimes que ele mesmo praticava, o Dr. Lecter é descoberto por Will, que acaba por prendê-lo. Alguns anos depois, novamente Will é levado a procurar Lecter, agora para ajudar a resolver um novo caso de um serial killer conhecido como Fada dos Dentes (interpretado por Ralph Fiennes). Trata-se de um bom filme, mas que se concentra mais na relação do policial com o novo assassino, deixando o Dr. Lecter mais como coadjuvante.

Após conhecermos a história final de Lecter, desde sua prisão até sua fuga nos três primeiros filmes, somos levados então a descobrir o início de sua história no filme Hannibal Rising (A Origem do Mal), um novo clássico dos filmes de suspense. Este é o melhor da série depois do Silêncio dos Inocentes, e o único em que Anthony Hopkins não participa, o que em nenhum momento faz com que seja um filme ruim. Isto graças ao jovem ator Gaspard Ulliel, que interpreta o jovem Hannibal. Neste filme é mostrada a infância de Hannibal, que após presenciar a morte de seus pais durante a segunda guerra, vê a irmã ser morta por um grupo de saqueadores, que a devoram para não morrerem de fome. Hannibal cresce e vai para a França procurar seu último parente vivo, um tio, que já havia morrido. Ele passa a viver então com a jovem e bela viúva de seu tio, onde acaba conhecendo o amor. Mas o sentimento de vingança fala mais alto, e ele parte atrás dos saqueadores, executando uma vingança implacável. O filme é belíssimo, além da excelente atuação do jovem ator que interpreta Lecter, ele mostra como o personagem vai sendo composto ao ser obrigado a se defrontar com os piores tipos. Sua nobreza e inteligência, assim como sua frieza, são características suas desde jovem, traços que ele aperfeiçoa durante sua vingança. Longe de justificar as atitudes de Hannibal, este filme complementa sua história ao mostrar os elementos que vão compondo seu estilo de ser.

Sua frieza e crueldade são frutos de sua própria história. Jovem educado e refinado, Hannibal não esconde um total desprezo por aqueles que lhe fazem mal. Isto é o que o leva a matar, ato para ele tão banal quanto alimentar-se. É fácil notarmos, desde o primeiro filme, que Hannibal só mata aqueles que despreza, que considera inferiores, toscos, brutos, sem qualquer tipo de refinamento. Para ele não há moral, ele está acima de qualquer moral, de qualquer valor. E a morte da irmã, descobrimos, é para ele uma motivação, uma busca pela paz, para finalmente deixar de ouvir seus gritos. Voltamos ao primeiro filme, onde descobrimos que Hannibal tem a mesma motivação de Clarice, o que modifica é apenas o modo de cada um buscar sua paz. Ambos buscam "the silence of the lambs". Só que, com o tempo, isto se torna um hábito. Salvar ou matar para ambos se torna algo banal, mais um item de suas personalidades. Assim é que encontramos Hannibal, muitos anos depois de sua vingança, continuando com seus crimes, agora aperfeiçoados pelo seu bom paladar e refinamento como grande chefe de cozinha.

Hannibal continua e continuará sendo um dos melhores (se não o melhor) psicopata do mundo do cinema, por tudo isto que foi aqui citado. Temido e admirado ao mesmo tempo, Hannibal mostra uma forma diferente de lidar com aqueles que lhe incomodam, comendo-os. E percebemos sua frieza ao saber que ele matou um músico de uma orquestra e serviu seus pedaços em um grande banquete oferecido aos próprios membros desta orquestra, apenas por ele tocar muito mal. Segundo ele, esta era sua forma de ajudar a própria orquestra, e, claro, aos amantes da boa música, como ele. Por esta e outras histórias, fica claro que dificilmente conheceremos outro personagem como este.

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