4 de abr de 2010

Duas visões de uma Guerra

Na história, costumamos dizer que em uma guerra não há heróis nem vilões. De ambos os lados, tudo o que vemos são interesses opostos e pessoas dispostas a lutar e morrer pelos interesses de outras. Mas em filmes, dificilmente fugimos do padrão "mocinho contra bandido". Dificilmente vemos filmes que tratam a questão de forma séria, sem cair nos famosos clichês dicotômicos, que separam os dois lados em conflitos dentro da ótica dos vencedores e perdedores.


Neste sentido, destacam-se os últimos dois filmes do agora diretor Clint Eastwood. Tratam-se de duas obras primas do cinema moderno, tanto do ponto de vista cinematográfico quanto histórico. Tudo começou quando o diretor pesquisava material sobre seu próximo trabalho: um filme sobre a batalha pela ilha de Iwo Jima, entre estadunidenses e japoneses, durante a 2º guerra mundial. O filme em questão é o excelente A Conquista da Honra.

Neste trabalho, Clint aborda uma velha questão em filmes de guerras: será que existem heróis durante uma guerra? É a história real de três combatentes que ao aparecerem em uma foto onde fincam uma bandeira em solo inimigo, voltam ao seu país como celebridades, e são tratados como grandes heróis de guerra. Obrigados a percorrer o país em uma espécie de turnê para arrecadar fundos para a guerra, os conflitos psicológicos e emocionais destes soldados são tratados no filme à medida que se lembram de todo o horror que passaram durante a guerra, de todos os amigos que morreram por lá e principalmente de todos os homens que tiveram que tirar a vida. O filme acaba trazendo uma reflexão sobre a guerra, que lembra um pouco o drama do ex-soldado em Nascido em 4 de Julho, mas aqui de uma forma mais emocionante e bela.

Acontece que para fazer este filme, Clint precisava de mais informações sobre o lado japonês da guerra. Ao fazer suas pesquisas porém, ele se depara com a imponente figura do general japonês Kuribayashi, um homem vigoroso e com uma história de luta fantástica, que tentou de todas as formas resistir ao exército estadunidense e lutou bravamente com seus homens até o fim. Foi então que veio a idéia de fazer um outro filme, agora mostrando a história da guerra sob a ótica dos soldados japoneses. O resultado foi o vigoroso e emocionante Cartas de Iwo Jima, filme que mostra um exército japonês em desvantagem e desestruturado, mas que mesmo assim tenta resistir à invasão estadunidense.

Os dois filmes são bastante diferentes, e por isto mesmo deixam claro as grandes diferenças existentes entre os modos de encararem a guerra de americanos e japoneses, desde a disciplina durante os treinamentos e a preparação, passando pela postura em relação aos combates e até ao voltar para casa. É impressionante analisar como americanos e japoneses lidavam com a guerra de forma totalmente oposta. Enquanto os americanos tinham uma preparação mais descontraída, a própria relação entre os soldados parece ser muito mais próxima, mesmo na relação com os superiores, enquanto que os japoneses são mais reservados, a disciplina é mais severa, e a relação entre os soldados e com seus superiores é mais distante, mais formal. Isto fica claro na forma como cada filme aborda os exércitos de cada país.

Um dos grandes desafios do filme Cartas de Iwo Jima foi fazer um filme totalmente falado em Japonês. O próprio diretor Clint admitiu esta dificuldade, já que segundo ele é bastante complicado gravar as cenas quando não se entende nada do que os atores estão falando. Mesmo assim o resultado é magnífico, como se pode perceber ao assistir ao filme. Aliás, este é um ponto forte dos dois filmes, ambos contam com um elenco impecável, que só enriquece as duas obras. O que mais chama a atenção aqui é que o objetivo principal do diretor não era mostrar a guerra em si, mas sim explorar as visões, emoções, sentimentos dos que participaram dela, mostrar os conflitos psicológicos e emocionais dos soldados, e como cada um dos dois lados lidava de maneira diferente com ela.

Neste quesito, um ponto forte são as diferentes motivações que possuem os soldados de ambos os países em relação à guerra. Para os norte-americanos, a questão maior é da amizade, os laços que se criam entre os soldados, longes de suas famílias e seus entes queridos, sozinhos, tendo que conviver apenas uns com os outros, eles acabam criando uma forte ligação, e esta acaba sendo sua principal motivação durante a guerra. Para os japoneses, a questão da honra e da dignidade por seu país e pelo seu Imperador é sua principal motivação. Isto fica claro nos filmes, quando o ato de recuar diante de uma batalha é considerado por eles uma desonra ao Imperador, e preferem o suicídio a ter de fazê-lo. Tudo isto, aliado às diferenças estruturais dos dois exércitos, mostrando como os norte-americanos tinham um exército mais numeroso e melhor armado, enquanto aos japoneses faltavam armas, munição, e até alimentos e água nos últimos dias de batalha, fazem com que estes dois filmes se completem e se tornem obras-primas.

Clint está de parabéns pela forma como conduz os dois filmes, entrelaçando seus enredos para mostrar as mesmas dificuldades e possibilidades existentes dos dois lados do conflito. O que percebemos é mais uma vez a velha história de que não há heróis ou vilões em uma guerra, todos estão apenas cumprindo ordens e tentando se manter vivo em relação ao caos em que estão inseridos. Por isto estes dois filmes são simbolos de como ver as coisas somente de um lado pode ser perigoso e nos leva a favorecer um dos lados. Um exemplo brilhante de que tudo no mundo é relativo, depende apenas de que lado estamos observando.

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