11 de jan de 2010

O Cubo

Este fim de semana estive entretido assistindo a uma trilogia bastante interessante. Trata-se do clássico cult intitulado O Cubo, filme canadense lançado em 97, que não é bastante conhecido pelo grande público, mas traz uma brilhante concepção. A história é simples e já foi bastante copiada em outras produções: um grupo de pessoas de repente acordam dentro de uma sala hermeticamente fechada, com aberturas em todas as extremidades que levam a outras salas iguais àquela, em um labirinto sem fim. Elas não sabem porque estão ali, nem como foram parar lá.

Esta estranha situação é o mote inicial para os três filmes da série, mas que devem ser analisados cuidadosamente e em separado. No primeiro filme, o diretor Vincenzo Natali nos brinda com um filme-conceito simplesmente brilhante. O Cubo não está preocupado em explicar nada. Seu objetivo é apenas mostrar uma situação inusitada, estranha, absurda, e como as pessoas lidam com ela.


Primeiramente, o Cubo em que elas são colocadas possui uma lógica, que se não for decifrada, pode levá-los à morte nas inúmeras armadilhas existentes nas diversas salas que compõem este enorme labirinto. Para levá-los à saída, as diferentes pessoas ali colocadas são obrigadas a unir seus conhecimentos e suas habilidades para conseguirem chegar a seu objetivo. Portanto, parece que elas não foram colocadas lá por acaso, mas tudo foi friamente calculado, como num grande jogo. Mas as coisas não são tão simples assim. Para resolver a grande questão sobre a razão de estarem inseridos naquele cubo, os personagens desenvolvem teorias diferentes que podem ser resumidas numa dicotomia: alguns acreditam que o cubo serve para a execução de testes militares ou outro motivo qualquer, enquanto outros acham que a única finalidade do cubo é eles estarem lá, não havendo, portanto, qualquer motivo além daquela situação, ou seja, não há nada por trás do Cubo. Pode parecer um pouco complicado ou sem lógica, mas na verdade o filme não passa de uma metáfora de nossa própria vida: Enquanto há pessoas que acreditam que estamos aqui por uma razão, porque "alguém" nos colocou aqui, com um objetivo, e que quando sairmos deste mundo encontraremos esta "pessoa" e ela nos esclacerá o motivo de nossa existência. Outros não acreditam em nada disto, acham que o único motivo de estarmos vivos é para viver, ou seja, não há nada além disto. Este é o grande questionamento que está implícito no cubo, e um dos motivos que faz deste filme uma obra-prima. Ele vai das teorias religiosas-existencialistas ao niilismo total.

Um outro ponto importante do cubo é o relacionamento humano. Como lidamos com nossos semelhantes e diferentes? Seis pessoas diferentes, que nunca se viram, de repente são obrigadas a cooperarem umas com as outras, testando sua inteligência e suas capacidades de confiar umas nas outras. Quando colocadas diante de uma situação extrema, estas pessoas reagem de diferentes maneiras, e acabam fazendo coisas impensadas muitas vezes, à medida que vão se relacionando, suas verdadeiras intenções e personalidades vêm à tona, e entram em conflito. É o eterno conflito humano, seja num imenso estádio de futebol, seja num simples cubículo.

Como puderam perceber, O Cubo é um filme único, inigualável. Mas de repente alguém teve a infeliz idéia de fazer uma continuação deste clássico. Pegaram a idéia conceito, limparam um pouco o cenário, acrescentaram uma penca de efeitos especiais e desenvoveram uma série de idéias mirabolantes sobre o cubo. O resultado pode ser conferido no filme Cubo 2 - Hipercubo, que é simplesmente desastroso. Após assisti-lo fica claro porque o diretor Vitali não quis fazer parte deste projeto. O filme é muito inferior ao primeiro cubo.

Em primeiro lugar, tiveram uma boa idéia pra fazerem um filme diferente do anterior: pegaram a teoria física do hipercubo, que fala de um cubo de quatro dimensões e aplicaram neste filme. Ou seja, agora não se trata de um simples cubo dividido em várias salas, mas vai muito além disto: o cubo possui uma quarta dimensão, que teoricamente seria o tempo. Por isto, cada sala deste novo cubo tem uma localização diferente não só no espaço, como também no tempo. Isto faz com que coisas estranhas aconteçam, como por exemplo a criação de universos paralelos dentro do cubo, ou seja, além de estarmos em diferentes espaços, estaríamos também em diferentes tempos.

Para entendermos isto, temos que encarar o tempo como uma faixa contínua, e que em cada pedacinho dela existe um "eu" diferente. Por exemplo, existe um "eu" em 1997, outro em 98 e outro agora. Pois é, mas se o hipercubo tem quatro dimensões, ou seja, além das três dimensões do espaço ele reune também a dimensão tempo, então todos os tempos estão unidos dentro dele. É como se todos estes "eu's" que existem estivessem convivendo ao mesmo tempo em um mesmo espaço.

Esta é a grande sacada do Hipercubo. A idéia vai muito além do cubo inicial, mas se o analisarmos como um novo filme, e não apenas uma continuação, poderíamos até dar um crédito a ele. O problema é que o filme foi muito mal desenvolvido, e esta boa história de ficção científica se perdeu no enredo mal projetado, ou seja, a idéia inicial foi muito mal explorada, e deu origem a um filme confuso, com pouco terror, poucas cenas realmente boas e um desfecho misterioso demais, que pode deixar duas conclusões: ou ele seria explicado em uma outra continuação, ou não sabiam como terminar o filme e inventaram algo só pra ter um fim.

Além destas diferenças conceituais em relação ao primeiro cubo, há ainda outras, como o fato das pessoas ali terem, cada uma a seu modo, uma ligação com a empresa que supostamente teria fabricado o cubo, o que já é outra diferença, já que no primeiro não faziam a menor idéia de onde ou quem tinha feito aquilo, agora já apontam para algo de cunho militar. Ou seja, todo o charme do cubo 1 vai pelo ralo. Este é o mesmo problema do terceiro e (por enquanto) último filme da série: Cubo Zero. Como o próprio nome deixa entrever, trata-se de uma retomada para antes do primeiro cubo, cronologicamente falando, e sua grande aposta está em decifrar os mistérios que o primeiro deixa, ou seja, quem teria criado o cubo e como e porque aquelas pessoas estão ali?

Com este mote, Cubo Zero tenta retoma a concepção do primeiro cubo, mas mistura algumas características que estavam presentes no segundo, como o componente militar. Este filme inova por ir além de mostrar apenas as pessoas dentro do cubo, ele mostra também o outro lado, ou seja, pessoas que "supostamente" controlam quem está lá dentro. O que acontece é que nem mesmo estas pessoas sabem os motivos para tudo aquilo, elas apenas obedecem. No fundo, as velhas questões do primeiro filme retornam, ou seja, de quem está por trás daquilo tudo. No fundo, tudo não passa de um grande sistema independente, que funciona sem que suas peças saibam como funciona o processo todo. No fim, acaba sendo um bom filme, bem melhor que o segundo, mas que também não alcança a magnitude do primeiro filme.

No fim das contas, conclui que é melhor ficar apenas com o primeiro filme e esquecer os outros. A grande diferença entre eles é que enquanto o primeiro cubo deixa as coisas em aberto, ou seja, ele foca nas pessoas, suas reações frente àquela situação, os outros dois filmes seguem caminhos explicativos bastantes duvidosos, e que acabam tirando o charme da idéia inicial. Eu sei que é difícil resistir à curiosidade, mas se puder, assista apenas ao primeiro filme. Eu não resisti.

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