7 de nov de 2009

A Eterna Contradição Humana

Outro dia estava eu perdido pelas estações de TV quando acidentalmente acabei colocando em um canal evangélico, onde um pastor falava de forma entusiástica aos seus fiéis. Normalmente eu não daria muita atenção a este tipo de coisa, mas o conteúdo de seu discurso me fez ouvir um pouco o que ele dizia. Tratava-se de uma fala sobre os valores humanos, e o pastor acusava a falta de valores morais sólidos de nossa sociedade atual. Em seus exemplos, dizia ele do absurso de que as pessoas, ao serem deparadas com um caso de traição em uma novela por exemplo, torcessem para que o traidor se safasse e ainda por cima que se desse bem. Citava ainda outros casos em que as pessoas se identificam com personagens que cometem atitudes moralmente reprováveis em filmes, novelas, e etc. Enfim, reclamava de que a sociedade moderna de hoje não possui valores, não dá valor a certas atitudes consideradas por ele moralmente corretas.


Achei esta fala muito interessante, pois ficou claro que o pastor, como membro de uma religião fundamentalista que é, defende até o fim a manutenção dos valores morais a qualquer custo. Mas isto me fez pensar na natureza humana, este estranho objeto de desejo de escritores e cronistas, seja brasileiro, seja de que país for. Muitos já foram os escritores que escreveram sobre esta duplicidade do caráter humano. E esta fala do pastor me lembrou especificamente um dos mais bem escritos contos da literatura brasileira e mundial, do nosso grande e talvez maior escritor: Machado de Assis.

O conto intitulado A Igreja do Diabo começa dizendo que, certa vez, o Diabo, cansado de sempre levar desvantagem em relação a Deus, resolve abrir sua própria igreja na Terra. Então ele sobe aqui, monta a igreja, faz toda sua propaganda, defendendo os prazeres humanos e tudo o mais, institui os dogmas da sua igreja, dos quais constavam na lista os sete pecados capitais, é claro. Enfim, tudo ia muito bem, a Igreja do Diabo prosperou, cresceu, arranjou muitos fiéis, e concorria em pé de igualdade com as demais religiões, quando o Diabo começa a perceber que há algo de estranho com seus fiéis.

Ele começa a notar que alguns fiéis continuavam a praticar, às escondidas, as antigas virtudes das outras igrejas, que agoram eram consideradas "pecado" na doutrinária às avessas da nova igreja satânica. Algumas pessoas de vez em quando davam esmolas na calada da noite, ao invés de praticarem o que a Igreja do Diabo lhes mandava: a avareza. Outras comiam frugalmente alguns dias do ano, contrariando a uma das "virtudes" da nova igreja: a gula. O Diabo ficou pasmo com tal constatação. Foi imediatamente reclamar com Deus e pedir explicações para aquele fato. Deus lhe ouviu pacientemente e arrematou: "Que queres tu, Diabo? É a eterna contradição humana..."

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